quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

entre as nuvens do amor ela dormia.


A moça toca flauta enquanto ela tenta lembrar-se das virtudes esquecidas em seu coração.
A melodia vai ecoando por toda parte, desde os ouvidos até o pulmão.
De repente ela tropeça nela mesma enquanto se enternece com o som raro daquela flauta.
E a tristeza transversal que até então lhe preenchia dá lugar a uma euforia luminosa, assim sem razão de ser, mas já sendo. Como sempre.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

lágrimas de chuva.


A chuva batendo no telhado e os trovões que acordam as pessoas de sono breve a acompanham enquanto escreve. Enquanto pensa. Enquanto sente.
Quando criança, ela amava ficar na chuva pelo simples prazer de chegar em casa, tirar a roupa e tomar banho quente. Sentia uma calma plena, poucas vezes encontrada em outros momentos.
Hoje ela deveria estar lá fora, de madrugada, deixando o seu corpo e sua alma serem lavados pela chuva. Porque dentro dela também há água transbordando. Mas, essa, ninguém vê, só ela escuta.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

dica de filme.


"Eu adorava o parque de diversões.
Meu brinquedo favorito era o carrossel.
Talvez eu estivesse meio velha para isso, mas os outros brinquedos me davam medo.
Mas o carrossel, ele só dá voltas, sobe e desce.
Você não chega a parte alguma, mas sempre se sente segura.

(...)

E eu?
Eu voltei ao parque de diversões.
O único lugar onde sempre me senti segura.
Lembro que o Reverendo Bill costumava dizer:
"Em todas as situações, Deus sempre tem um plano."
Acho que ainda estou tentando descobrir que plano foi esse..."

Um crime americano, baseado no caso Baniszewski, uma história verídica.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Cadê a tampa da minha panela, o chinelo do meu pé cansado, a metade da minha laranja?


E chega! Há anos peço o príncipe e só me mandam o cavalo. Dizem que materializar os sonhos escrevendo ajuda. Então lá vai: quero transar com beijo na boca profundo, olhos nos olhos e eu te amo, quero cineminha com encosto de ombro cheiroso, casar de branco, ser carregada no colo, filhos, casinha no campo com cerquinha branca, cachorro e caseiro bacana. Quero ouvir Diana Krall numa noite chuvosa e ter de um lado um livrinho na cabeceira da cama e do outro o homem que amo. Que a gente brigue de ciúmes, porque ciúmes faz parte da paixão, e que faça as pazes rapidamente, porque paz faz parte do amor. Quero ser lembrada em horários malucos, todos os horários, pra sempre. Quero ser criança, mulher, homem, et, megera, maluca e, ainda assim, olhada com total reconhecimento de território. Quero sexo na escada e alguns hematomas e depois descanso numa cama nossa e pura. E quando eu tiver tudo isso e uma menina boba e invejosa me olhar e pensar que "aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências" vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou o verdadeiro amor.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Sobre o arrepio.




Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pêlos, curiosos, levantam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanham seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

-Ela está apaixonada




- Mas eu nem mesmo a conheço.
- Oh sim, você a conhece sim.
- E desde quando?
- Desde sempre Nino, desde sempre...Nos seus sonhos.

(O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

carta para o homem que morreu e um pouco de verdade viva.


Hoje eu passo quieta por você, você passa quieto por mim, e eu ainda escuto o barulho que a gente faz. E você já abalou tanto a minha vida. Que pena, agora você morreu. Mas, não morre, por favor. Seja ele, seja o homem que perde um segundo de ar quando me vê. Mas você nunca mais me olhou quase chorando, você nunca mais se emocionou, nem a mim. Você nunca mais pegou na minha mão e me fez sentir segura. Nunca mais falou a coisa mais errada do mundo e fez o mundo valer a pena. Eu treinei viver sem você, eu treinei porque você sempre achou um absurdo o tanto que eu precisava de você para estar feliz. De tanto treinar acostumei.
E agora eu só queria que ele aparecesse, o homem que vai me olhar de um jeito que vai limpar toda a sujeira, o rabisco, o nó. O homem que vai ser o pai dos meus filhos e não dos meus medos. O homem com o maior colo do mundo, para dar tempo de eu ser mulher, transar para sempre. Para dar tempo de seu ser criança, chorar para sempre. Para dar tempo de eu ser para sempre. Cansei de morrer na vida das pessoas. Por isso matei você. Antes que eu morresse de amor. Matei você. Eu sei que sou covarde. Surpreso? Eu não.




"A maquiagem tinha custado cara demais para eu ir dormir antes de borrá-la."