quinta-feira, 27 de novembro de 2008

para uma menina com uma flor.


Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.


moraes, vinícius de.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

canção do amor impossível.


como não te perderia

se te amei perdidamente

se em teus lábios eu sorvia

néctar quando sorrias

se quando estavas presente

era eu que não me achava

e quando tu não estavas

eu também ficava ausente

se eras minha fantasia

elevada a poesia

se nasceste em meu poente

como não te perderia?

Antônio Cícero.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

permita-se.


Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por semana, gostar até as duas e dezoito. Cansei de gente que gosta como pensa que é certo gostar. Gostar é essa besta desenfreada mesmo. E não tem pensar. E arrepia o corpo inteiro, mas você não sabe se é defesa para recuar ou atacar. Eu eu gosto de você porque gostar não faz sentido.Permita-se. Se você acha que no fundo mesmo, apesar de todas essas reuniões e palavras em inglês que só querem dizer que você não sabe o que está falando, o que importa é ter pra quem mostrar que saiu o arco-íris. Permita-se. Porque eu não quero que você tenha essa pressa ao ponto de ajudar com as próprias mãos. Eu quero que você sinta esse prazer que chega aos poucos. E mata tudo que há em volta. E explode os relógios. E chega aos poucos ainda que você ainda não saiba nem quem é pouco e nem quem é lento. Porque você morre. Se você prefere a vida quando se morre um pouco por alguém. permita-se.Eu não faço a menor idéia de como esperar você me querer. porque se eu esperar, talvez eu não te queira mais.Eu não queri ir embora e esperar o dia seguinte. porque cansei dessa gente que manda ter mais calma. E me diz que sempre tem outro dia. E me diz que eu não posso esperar nada de ninguém. E me diz que eu preciso de uma camisa de força. Se você puder sofrer comigo a loucura que é estar vivo. Se você puder passar a noite em claro comigo de tanta vontade de viver esse dia sem esperar o outro, se você puder esquecer a camisa de força e me enrroscar no seu corpo para que duas forças loucas tragam algum aquilibrio. Se você puder ser alguém de quem se espera algo, afinal, é uma grande mentira viver sozinho, permita-se. Eu só queria alguém pra vencer comigo esses dias terrivelmente chatos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

le félicité


Um dia ela voltou. Sem falar nada se enfiou comigo embaixo do edredom, quentinha e só foi embora quando o relógio despertou rasgando o conforto. Estava frio. Durante o dia ela voltou em situações bobas como o sorriso do menino mais lindo do mundo, a bolacha de chocolate que eu lembrei que tinha na gaveta e um relatório bobinho que eu fiz e caiu nas graças do meu chefe. Ela ia e voltava, ia e voltava: como a vida, sempre linear, sempre infinita. À noite ela apareceu na porta do meu banheiro, fez tanta força que entrou mesmo com a porta fechada. Me assustei ao vê-la através box embaçado, mas ela nem aí, me mostrou mais uma vez que quem manda é ela, e portanto tem o poder de me seduzir seja quando for, no momento que eu menos espero.Meu Deus, às vezes ela some por tanto tempo que me deixa sem ar. Tenho saudade, fico louca, tenho um vazio depressivo, um buraco. Sim sou dependente pois ela me trata como mais uma, e eu odeio ser mais uma. Mas eu aprendi, finalmente, eu aprendi que ela não aparece apenas numa grande história de amor, num baita sorriso de tirar o fôlego, na falta de lucidez de uma relação cheia de paixão ou na minha conta bancária recheada de grana pra entrar numa loja de sapato e levar tudo que eu quero sem perguntar o preço. Ela também dá as caras pelo lado simples da vida. Semana passada apareceu num sorvete de iogurte e hoje apareceu numa sala de espera lotada. Tava lá, eu, esperando para abrir as pernas naquela cama da tortura e ouvir da minha ginecologista: “não, não vai doer, relaxa, é bem rapidinho”. E ela apareceu. Liguei meu celular e vi que tinha uma mensagem. Alguém tinha deixado na minha caixa postal um recado, esquisito como sempre, alegre e divertido como nunca. Ri de mim. Ri das minhas gafes. Ri de tudo. A felicidade entrou com o pé na porta e sentou ao meu lado. Eu não estava mais sozinha esperando o espéculo. Minha cara carrancuda num trânsito todo parado e ela acena no carro à frente. Sorrio de volta e aceno. Ela sorri e depois morre de vergonha e toma bronca do pai para sentar direito na cadeirinha. O dia meio cinzento, vai-não-vai e de repente ela surge amarela e esquenta a vida. Ela mora numa gaveta cheia de bobeirinhas lá em casa, que tem caixinha de música, anel de docinho, cartão fofinho de dia das mães, fotos da minha bochecha quando eu tinha cinco anos e lembranças de carinho em flores secas. Ela é virtual, está no blog que eu escrevo, nos comentários que eu leio, nos e-mails histéricos que envio e recebo.Ela é a voz quando eu lembro do meu pai dizendo que eu era a mulher mais linda do mundo, que eu parecia uma rosa quando nasci. A mulher mais linda do mundo pequeno do meu pai. A felicidade mora num mundo pequeno seu e não naquele grande que faz você se perder demais. A felicidade é simples, e quando você descobre isso ela deixa de ser uma espera e passa a ser um minuto, um segundo. E é de minutos e segundos que se faz a vida. E aí você perde menos tempo esperando e mais tempo vivendo. Entre o piegas e o chavão, é assim que ando por aí vivendo a vida intensamente sem esperar momentos intensos. Você já tentou? Já tentou não imaginar a sua felicidade na outra festa que você estaria se não estivesse nessa e encontrar a sua felicidade onde você está? Tente, pode ser numa música boba, pode ser num amigo que você não via há muito tempo. Pode ser morrendo de rir de uma noite mico, por que não? Eu sempre esperei viver uma história de cinema, ouvir cantadas de filme francês, ganhar salário de estrela, ter amigos de sitcom, corpo de capa de revista e enterro de celebridade. Ai eu lembrei que os filmes de que eu mais gosto são aqueles despretenciosos que contam a história de uma pessoa idiota como eu.

domingo, 23 de novembro de 2008

Beijos...



Que traduzem sentimentos
Que inspiram à poesia
Que marcam belos momentos
Aguçando fantasias
Beijos...
Que sussurram em seu ouvido
Que fitam os teus seios
Que deslizam em teu corpo
Te deixando em devaneios
Beijos...
Que navegam em teu suor
Que te possui em frenesi
Sugando-te o que há de melhor
Insistindo em te seduzir
Beijos...
Que invade o teu íntimo
Com a intenção de desfrutar
Desnudando a tua alma
Que te fazem delirar
Beijos...
Que brincam com sua insensatez
Descobrindo em ti a beleza
Que de dentro vem a polidez
Que de fora transparece a sutileza
Beijos...
Beijos...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Francisco era um gozador


Nunca estive tão bem vestida, ainda que fosse o trapo do meu lençol da cama antiga. Calcei os chinelos. Segui até a varanda e tive vontade de dizer para o vizinho do prédio em frente, o prédio que sempre odiei porque toca pagode aos domingos, que eu o amava. Bom dia, vizinho! Eu amo você! Amo sua esposa, seus filhos, suas plantas, seu Corsa parcelado. Tudo. Eu amo a vida. Se bobear até o pagode. Bom dia vizinho! E segui dando bom dia às minhas amigas plantas. Bom dia à minha cachorrinha preguiçosa que me olhava sem processar porque era cedo demais pra processar. Bom dia para a água do passarinho. Para a ausência do passarinho. Para a empregada doméstica lá embaixo empurrando um carrinho de feira capenga. Bom dia capengas, seres, inanimados. Pessoas todas, me escutem, essa porra existe! O amor existe! Não era invenção de roteirista ruim! Bom dia! Dei bom dia para a cara torta do Bush no jornal e para a manga que comi inteira. Bom dia para as palavras que não terão mais acento. Bom dia para a Maria, que chegou de cara feia e logo sorriu pra minha cara desfigurada pelo amor. Caras de amor são como carrancas para espantar Marias infelizes. São tão bonitas que parecem caretas. Bom dia para os insetos que a Lolita quer pegar desesperada. Bom dia ao desespero. Tudo é bom. Tudo parece bom. Bom dia para a vida como ela sempre deveria ser. E segui com meu bom dia, mesmo quando o dia já escurecia. Dei bom dia para coisas rastejantes como meu tapete que sempre bagunça porque meu sapato prende nele e bom dia para meu tapete voador imaginário que me fez dar bom dia ao mundo todo, mesmo para aquelas pessoas que eu nem sonho que existem. Bom dia para todas essas coisas que virão e que foram e que estão. Porque quando se sente tanto a vida não importa nenhum momento solto e não importa que nomes tiverem esses momentos mas apenas toda essa força que sempre esteve aqui. Mas que só agora eu consigo pegar, amassar, apertar e dar bom dia. Bom dia! Bom dia! Bom dia força! Bom dia prolapso da válvula mitral. Eu sei que você está enlouquecido e com medo de morrer. Mas até sua quase morte merece um bom dia. E então vai dar tudo certo. E daria bom dia, hoje, para todas as lanças. Bom dia lanças maravilhosas que me dilaceraram tanto e me trouxeram até a melhor manhã da minha vida. Dou bom dia para todas as minhas cicatrizes. E abraçaria pés na bunda e beijaria caras de lado e velaria sonos de quem já me estatelou os olhos sem esperança de tranquilidade. E mostraria inteiros para quem negocia partes. Porque hoje é o dia de dar bom ao fim da dor, ao fim da vingança, ao fim da espera, ao fim da defensiva. E dar bom dia ao início da primavera, ao início da minha beleza e ao amor. Finalmente. Bom dia ao amor. E bom dia para essa risada que sai livre, solta e que eu nem percebo que é risada porque não consigo olhar pra fora da pele de tanto que é bom ficar aqui dentro. Hoje é o dia de dar bom dia a mim.


Tati Bernardi.


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

o medo é um mal conselheiro

"seu querer fazia versos naquele dia... dia de dançar para desviar dos pingos da chuva que brotavam das nuvens dos seu rosto, dia de deixar desfalecer o tempo e no escurinho da alma sentir piscar vaga-lumes... e eram versos bons de se perder no contar da realidade em que vivia, dia que a felicidade se esquecia de passar e repouso fazia naquelas horinhas de saudades sem medo... escrevendo, era assim que se sentia... mas, no acabar dos escritos, no silenciar da ultima palavra, voltava a tristeza e seus olhos calejavam uma outra vez mais de lágrimas... e de la e de ca e de la e de ca e de la e de ca era só mesmo este o fazer do sentido da vida, que dedilhava num quetinho só, o amor que um dia teve..."

Projeto Reticere

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

já não há palavras

"Suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram. E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas."



tudo bem eu querer um amor desses de cinema?

domingo, 16 de novembro de 2008

se mal há, mal não há mais.

"Vergonha ela nunca teve, sempre clara e amostra. Menina sonhadora, mulher forte. Mais menina que mulher quando o assunto são sonhos, isso é verdade. Mas a mulher, essa escancara as dores, mostra o peito machucado e procura seguir. O castelo de sonhos ruiu, talvez porque o alicerce fosse feito de nuvens, ou talvez porque a vida não seja feita de amores incondicionais. O adeus com palavras não fora dado, mas as entrelinhas falam mais alto e machucam mais. Ela que odiava ler entrelinhas, mais uma vez era posta frente a elas e seguir era o único caminho possível. Sabia ela que jamais entregaria os sonhos,fossem eles quais fossem, até porque a menina ainda tem muito o que aprender. Mas eles mudam de direção pois são como o mar, que tem suas mares e seguem. Era necessário que ela agora seguisse o seu caminho, se desvencilhasse dos pesadelos e seguisse outros mares. Serenos, pessoais, só seus..."



É, era necessário que ela agora seguisse o seu caminho...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

da vida tudo se leva

"Nasci numa noite quente. E não fui vaginal. Gol de barriga. Já era inquieta e por mais que amasse dormir, cinco horas me bastavam. Papai tocava violão e tinha a voz grave a afinada. Sentava perto do berço e cantarolava: "meu bem, já não precisa falar comigo dengosa assim... brigas para depois, ganhar mil carinhos de mim... se eu aumento a voz você faz beicinho e chora baixinho..." Sim. Erasmo Carlos. Os olhos sempre foram curiosos e grandes. Assim, embalada pelo violão ou pela voz de papai, Morfeu me conduzia ao sonho infantil pontuado por monstros verdes parecidos com o Hulk e balões em forma de coração, onde dentro, eu voava para bem alto. Sozinha. Sempre. Nasci no verão. O calor do berço me fazia virar de quinze em quinze minutos. Morfeu me abandonava rapidamente. Qualquer buzina na rua, qualquer tosse de meu irmão, meus olhos abriam, primeiro assustados, verificando uma possível existência do monstro verde no quarto. Depois curiosa, observando a vida de madrugada, tão calada, escura, úmida e incrivelmente bela. Chorava pouco. Resmungava. A cabra que me rege é chata. Não chora. Resmunga. Mamãe levantava com olheiras que a deixavam feia, e que hoje sei, será santificada por isso. Rezava comigo. Aplicava reiki. Me dava florais. Cantava ponto de criança. "estrelinha que está no céu a brilhar..." Bernardo desmaiado feito pedra. Leo ainda se mexia, mas muito cansado não conseguia reclamar do barulho. É que dormindo, eu não vivia. Sonhar ainda não era tão fascinante. Meu inconsciente ainda não havia despertado para essa outra possibilidade de vida. As janelas abertas. O ventilador ligado. A nuca suada. "Dorme com Deus", mamãe dizia e ia embora. Mas Deus era grande demais para dormir no meu berço. Na minha mente. Com medo de Deus estar presente no quarto, elaborava os pensamentos mais esquisitos para relaxar e tentar, enfim, dormir. Dentro da barriga era Chopin que me acompanhava e eu ainda não sabia. Daí teve um dia que ouvi alguém dizer que sonhar era a capacidade de viver tudo aquilo que a gente não vivia aqui, de olhos abertos. Só que de olhos fechados. E aí que castelo sempre me intrigou. E não o trono. Mas sim as torres e os calabouços. E com a cabeça ainda de cabelos lisos me enxergava num calabouço sujo e frio. O bolero de Ravel que mamãe insistia em colocar domingo para o almoço entrava ao fundo. De repente comecei a escolher outros lugares. Escolher as pessoas. A trilha. O roteiro era meu. Eu escolhia. Eu podia escolher. Vez ou outra, coisas que eu não havia escolhido se intrometiam, mas eu não ligava. Logo haveriam de sumir e sumiam. Não havia espaço para elas. E com alguns poucos anos de existência, numa noite de verão, aprendi a dirigir a melhor novela da vida. A minha."



na terapia de hoje discuti como é totalmente incoerente o fato de que em determinados momentos de nossas vidas depositamos toda esperança de felicidade em uma única pessoa. e isso que hoje me vitimiza corroendo e aflingindo, já foi por mim pensado. já depositei sim tamanha responsabilidade em alguns seres ao decorrer desse longo trajeto que nos acostumamos a chamar de vida. e é incrível perceber o poder que elas detiveram sobre mim, podendo até mesmo decidir a qualidade diária. um sorriso era sinal verde, sinônimo de que aquele dia seria bom. já indiferença ou discussões eram sinal vermelho: pare o mundo que eu quero descer. amarelo? vermelho disfarçado, pois é nesses momento que o copo está sempre metade vazio, nunca metade cheio. mas o mais incrível de toda essa jornada é o poder de superação e mudança do ser humano, já que hoje eu posso ver tudo com clareza. foi hoje inclusive, que ao olhar o espelho eu vi a única pessoa capaz de me fazer feliz, eu mesma.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

mon inconstance.

"Eu nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta loucura, tanta emoção. Eu nunca respeitei sua banalidade, nunca entendi como pude ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me aquietava em nada, não me preenchia, não me planejava, não me findava. Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo.
Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria. Não existiu morte para o que nunca nasceu.
Sinto falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença tão insignificante. Era a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. E isso era lindo. Você era lindo."



um dia alguem tornou famosa a frase "quando voce acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas". depois de tão repetidas, normalmente essas frases perdem a poesia e se tornam mais um clichê. porem, entretando, todavia, essa frase hoje tem um significado especial pra mim. acho que por não estar naqueles dias em que Deus me tira a poesia das coisas, e ao olhar pedra, vejo pedra mesmo.
hoje essa frase reflete bem o que se passa aqui por dentro, não que eu já tenha encontrado alguma vez todas as respostas, nem isso eu um dia logrei. a questão agora são as novas perguntas que surgem, em alta velocidade, são tantas, de tantas cores, tipos e cheiros que eu mesma vou me tranformando em uma. daquelas do tipo "o que garante que o sol vai nascer amanha?" eu não saberia responder. e nem você.

-Sabe a garota do copo d'gua?



- Sei.
- Se parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?
(O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)