segunda-feira, 30 de março de 2009

de meus olhos, posso ver o mar.


é só saudade mas dói tanto quanto amor
é só seu rosto que aparece no televisor
mudo os canais a te procurar

é só saudade mas dói tanto quanto te olhar
dói como fome
como falta do que respirar
mudo o caminho mas meu destino está em você

como poderia não te perder?
se ao te encontrar me perdi
me perdi com a boca enveredada em teus cabelos
tuas mãos mapeando o corpo meu
em cada toque descobrindo as mais intensas sensações

sensações essas que imaginei somente existir nos livros
disfarças do conceito se sinestesia
mistura de percepções, reações impassíveis de descrição
arrepiando a alma e molhando o corpo

mas é só saudade, humana demais que sou.
enfim, é só saudade...

quinta-feira, 26 de março de 2009

a saudade é um parto ao revés.


eu estava dando uma lida em arquivos antigos, maldades, injutiças, crimes, falta de humanismo em tudo que vejo. afinal, faço direito, e é triste ver na prática aqueilo que aprendemos através de uma bela teoria igualitária. não pensem que estou descrente de minha profissão, longe de mim, acredito na tal teoria embora ela seja rara de se constatar. e almeijo ser uma dessas raridades, autoridades que exteriorizam o que há de bonito no ser humano. porque há sim muita coisa bela a ser mostrada e descoberta. e eu prefiro pensar sempre no copo metade cheio, mesmo sabendo que a outra metade está lá. tenho a intenção de, inspirada por figuras como o juiz De Sanctis, lutar pelos meus proprios ideais, fazendo prevalecer minha indole, carater e pensamentos. não me deixando abater por colarinhos brancos ou tribunais superiores. sei que parece uma utopia falar isso, dado que sabemos que a carreira juridica hoje( e desde sempre) é uma das mais corruptas, quando deveria combater fielmente a corrupção. mas toda grande macieira tem suas maças podres, e somente são apreciadas pelos homens e por deus as mais belas. quero ser uma dessas. melhor, vou ser.

enfim....

eu estava dando uma lida em arquivos antigos, maldades,injutiças, crimes, falta de humanismo em tudo que vejo. e me deparei com o caso que culminou na promulgação da lei para os crimes hediondos, o caso de daniela perez, a qual foi morta a tesouradas por motivo fútil. ao ler sobre o assunto vi uma bela declaração da sua mãe, gloria perez, que citava um trecho de uma musica de chico buarque: "a saudade é um parto ao revés."
essa frase de impacto me fez refletir. não só por soar, literalmente, como musica aos meus ouvidos, mas por me parecer tão verdadeira, cheia de pureza e dor. pois se você parar para pensar a saudade dói por te fazer querer trazer de volta pra dentro de si tudo que um dia foi seu. e dói mais ainda a impossibilidade de.
a impossibilidade de abraçar o corpo da pessoa da qual sentimentos saudade, para guardá-la, detalhe por detalhe, não na mente, mas nas entranhas. mas é a saudade que, paradoxalmente, alimenta a alma e nos faz sentir vivos, juntamente com as lembranças que ela carrega intrinseca a si, e a esperança de um dia encontrar o que vai estancar a ferida, para fazer doer a proxima.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Néctar.


A verdade aproxima-se.
Olha-me com os olhos
abismados da beleza.
Não sou a mulher
que corta os pulsos e se joga da janela
nem aquela que abre o gás
nem mesmo a loba que entra no rio
com os bolsos cheios de pedra.

Sou todas elas.
Escrever me fez suportar todo incêndio

– toda quimera.

segunda-feira, 23 de março de 2009

casado com a morte.


O artigo primeiro de nossa constituição federal versa, também, sobre o princípio da dignidade da pessoa humana, o chamado princípio-mãe que rege os demais princípios e artigos da carta constitucional. Tal princípio é conceituado por Sergio Ferraz como “a base da própria existência do Estado brasileiro e, ao mesmo tempo, fim permanente de todas as suas atividades. É a criação e manutenção das condições para que as pessoas sejam respeitadas, resguardadas e tuteladas, em sua integridade física e moral, asseguradas o desenvolvimento e a possibilidade da plena concretização de suas potencialidades e aptidões.”
Dignidade e liberdade atrelam-se à pessoa humana, indissoluvelmente. Cabe recordar que, um dos fins do Estado é propiciar as condições para que as pessoas se tornem dignas. Todavia, a dignidade humana pode ser por diversas maneiras violada, dentre estas, através da qualidade de vida desumana resultante, por exemplo, de um acidente que deixe o individuo tetraplégico e acamado pro resto da sua vida, como visto no filme “Mar adentro” em que Rámon Sampedro passa 28 anos lutando pela sua morte utilizando-se apenas de sua lucidez e inteligência, visto que ainda possuía os movimentos da face. Ou ainda, como demonstrado no filme “O escafandro e a borboleta”, em que o protagonista Jean-Dominique Bauby tem um derrame cerebral, que faz com que o único movimento que tenha em seu corpo seja o do olho esquerdo, o qual é utilizado para a sua única comunicação com o mundo exterior, através do numero de piscadas do personagem.
Tendo em vista esses dois exemplos, os quais são ínfimos diante do numero dos que existem, contudo podem ser considerados símbolos, eu lhes pergunto: O que é dignidade para vocês? Qual é a dignidade que o principio em pauta defende? Que dignidade uma pessoa em eterno estado terminal pode ter? Ou pior, quando essa pessoa luta o resto de sua vida, ou melhor, não-vida, pelo fim de seus dias, e conseqüentemente pelo fim de seu sofrimento.
No caso do filme mar adentro o personagem discorre em uma carta deixada antes de morrer sobre esse assunto e alega que seja qual for a resposta para a pergunta anteriormente feita, para ele aquilo não é viver dignamente. E clama por, ao menos, uma morte digna. O que proponho é uma reflexão a cerca disso, em que viver nessas condições torna-se uma obrigação, quando na verdade viver deveria ser visto como um direito, uma dádiva, proporcionando felicidade, e não amargurando os corações dos que vivem. Na premissa de por um fim ao tempo que passou contra a sua vontade durante todos esses anos, e na luta pelo direito de decidir sobre sua própria vida, Rámon indispõe-se com a igreja, a sociedade e até mesmo com seus familiares. Até que dividiu cuidadosamente O processo que causaria a sua morte em pequenas ações que não constituem delito em si mesmas, e foram executadas por diferentes mãos amigas, visto que o mesmo não tem condições para provocar a própria morte. Outro questionamento a ser feito, visto que qualquer ser humano em condições normais tem a capacidade de tirar sua própria vida, sem enfrentar processos, ou julgamentos, e neste caso nem ao menos isso Rámon poderia fazer sem ajuda de terceiros.
Não estou afirmando que a vida dos tetraplégicos ou de qualquer outro tipo de enfermos incuráveis não é digna. Longe de mim, quem sou eu para julgar aqueles que mesmo diante de uma situação dessas querem viver? Muito pelo contrário, admiro a coragem e a força de vontade que os mesmos demonstram. Estou aqui afirmando que uma vida obrigada, e forçada não pode de forma alguma ser considerada digna. Não existem argumentos que justifiquem tal atrocidade, principalmente aqueles no âmbito religioso que alegam que “Se só Deus nos dá a vida, só ele pode tirá-la”, visto que vivemos em um estado laico, entretanto visões como essa continuam intrínsecas ao nosso pensamento e são demonstradas em nossa constituição, a qual proíbe a prática da eutanásia, até mesmo em casos como esse, considerando por parte daquele que a causou, uma prática homicida.
Quando uma pessoa passa a ser prisioneira do seu corpo, dependente na satisfação das necessidades mais básicas; o medo de ficar só, de ser um fardo, a revolta e a vontade de dizer “Não” à vida, levam-no a pedir o direito a morrer com dignidade. Obviamente, o pedido deverá ser ponderado e analisado antes de operacionalizado, na premissa de que a qualidade de vida para alguns homens não seja um demorado e penoso processo de morrer, ainda possuindo o agravante de que em uma sociedade que adota uma politica de contenção económica, os custos dessa obrigatoriedade tornam-se bastante elevados.
Em suma, a constituição federal deve simbolizar como já simboliza em inúmeros aspectos, uma vez que é conhecida também como a "constituição cidadã", uma busca constante pela igualdade de direitos, liberdade e dignidade. E acredito que ao termino deste encadeamento de idéias tenha ficado bastante claro que uma vida que elimina a liberdade, não pode ser considerada vida.


foto do filme "O escafandro e a borboleta."

sexta-feira, 20 de março de 2009

anoitecer os sonhos e amanhecer o amor.



á chega! desejo todos os dias, como aquele desejo que alimenta o vício e corre nas veias em procissão, a chegada daquele que vai beijar a minha dor e honrar as minhas cicatrizes.
desejo que com ele, venha a verdade pura embrulhada em olhos de celofone.
a verdade, só pra variar, a verdade.
um beijo de verdade, como aquele dos cinemas americanos, comprido como costumam beijar-se os enamorados, ou como a lágrima desembocando na alvorada.
um beijo juntamente com o sorriso dele se abrindo tranquilo, o sol colorindo e a natureza tingindo de cor o frio da madrugada.
quero com ele poder me mandar por essa estrada mundo afora, ir embora, sem sair do meu lugar, que é ao seu lado. e assim, um pouco rebelde e com um quê de esperança, sentir-me segura e completa, porque é assim que ele me faz sentir.
e um dia, quando eu conseguir tudo o que almeijo e uma menina boba e invejosa, como eu me sinto hoje em dia, me olhar e pensar que "aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências" vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou o verdadeiro amor.
A M O R.
quando um mais um se torna um, os paradoxos se tornam cotidianos, e passamos a tecer o amado emetáforas, torna-se possível ver o futuro nas mãos e a felicidade escorrendo nos olhos.

quinta-feira, 19 de março de 2009

e ao inferno também.


e enfim o amor desafinou, perdeu o ritmo. ainda que o timbre soe suave e pueril, ao mesmo tempo que arrebatador e profano.
mas no peito dos desafinados também bate um coração. esse coração que depois das feridantigas já não é mais o mesmo, esse coração que bate cada vez mais lento pela abstinência do objeto catalizador.
aquele que desfolhou-me como à mais pura das rosas, com toda a delicadeza e o tato que o momento pedia, mas derrapando pelas curvas do meu corpo, completando-o, bebendo o que dele escorria pela pele.
o suor, o gozo, os gemidos que desordenam, o toque, e de fundo a musica embalando os nossos corpos à vontade. melhor ainda é poder deitar a cabeça com ar de alívio, sem os arrependimentos que me companharam nas camas que conheci, sentindo-me protegida por ter feito e presenciado o amor, pela primeira e unica vez.
amor presente no cheiro que exala quando você me aperta, me amassa, me quebra, me usa demais. presente no olhar de cumplicidade que você me lança quando me surpreende com seus movimentos, despertando em mim aquilo que há de pior, os instintos mais primitivos, e a fantasias que sobrevoam minha mente.
mas essas bocas que ontem se alimentavam devorando uma a outra, hoje cospem fogo e saliva. hoje você não me cabe, e eu te sobro. quero sangue pulsando, e esse fogo fervendo e queimando você. que uma onda te leve, te afogue e te entregue a quem for, mas que te faça desaparecer.
ah eu quero é ar para beber, eu quero mais é te perder...

quarta-feira, 18 de março de 2009

uma vida que elimina a liberdade não é vida.


“Mar adentro, mar adentro,
E na leveza do fundo,
Onde se cumprem os sonhos,
Juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.

Um beijo incendeia a vida
Com um relâmpago e um trovão,
E em uma metamorfose
Meu corpo já não era meu corpo;
Era como penetrar no centro do universo:

O abraço mais pueril,
E o mais puro dos beijos,
Até sermos reduzidos
Em um único desejo:

Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
Mais adentro, mais adentro,
Até o mais além do todo
Pelo sangue e pelos ossos.

Mas sempre acordo
E sempre quero estar morto
Para seguir com minha boca
Enredada em seus cabelos”.

Os Sonhos – Ramón Sampedro (Personagem do filme "Mar adentro")

domingo, 15 de março de 2009

nem tempo, nem espaço: ao avesso.




Eu não te quero
nem perto nem longe:
te quero solto.
Por isso,
tento te ensinar o vôo de pássaro que testemunhei
daqui, da janela dos fundos.
Tento te falar das ondas arredondando as pedras,
batendo nelas, explodindo nelas
porque sabem:
a fluidez da paixão vence o inflexível,
o duro,
o aparentemente imutável,
o falsamente pronto.

Eu não te quero
nem em luzes nem em escuros:
te quero sem medo.
Por isso,
fiz para ti o caminho estranho
de estar presente como futuro.
Porque eu testemunhei o sem saída
e quando os muros chegaram no limite do mais alto,
quando subir neles era impossível,
quando ultrapassá-los era insanidade,
fechei os olhos e os muros desabaram,
sem ruído.

Não trouxe um livro nas mãos,
não decorei um discurso,
não aprendi a música,
nem te faço um testamento.
É a matilha, é o lobo
o que eu te ofereço.
É uma flor em cada poro:
uma permissão ilimitada,
uma autorização confiante,
um sim como resposta
para o que não perguntas.

Do fundo eu invoco as forças e elas chegam.
Do nenhum lugar, do nunca é que elas vêm.
Não me penso ilimitada
ou determinada.
Não me penso.
O último pensar desmanchou-se,
ao som dos guizos,
ao som de um chocalho índio,
que exorciza fantasmas,
(des)entendimentos,
culturas.

Visto essa roupa branca,
rude, limpa e grossa
para que sintas, ao tocá-la,
um contraponto de pele.
Para que sintas depois a pele,
depois o derretimento,
depois a inundação
e o escoamento.
E se posso chorar todos os choros,
e reuni-los num mesmo lugar
é porque nessa água navegas
desde sempre,
a escrever a minha história impessoal
pelas bordas,
pelo que me prende, prega
a impedir que eu (não) caia.

Habitas um território negro
um sangue negro te corre nas veias,
espinhos negros tatuam em teu corpo
o por onde andas.
Negras feridas, negra bandeira,
e essa vertigem que me coloca aí,
sem gosto por outra cor que não essa,
sem desejo por outro lugar que não esse.
Não ser luz, nem estrela,
não negar ou combater essa cor de cego
que vê além.
Apenas ficar.
Apenas aceitar,
Baixar a cabeça e aceitar.
Fechar os olhos, permitir-se a náusea,
e aceitar a febre, a convulsão e o vômito.

Não, eu não te traio.
Não, eu como contigo os vermes, os insetos.
Não, eu bebo contigo a água podre, o vinagre.
Não, eu não te renego.
Minha pele se arrepia,
cria espinhos como a tua
e diferente da tua
e eu não te renego.
Entras em mim pelos buracos, pelas fendas,
pelas aberturas todas que eu fechei,
pelas dobras, pelas costuras,
rasgando, ferindo
e eu não te renego.

Nunca estive pronta
e estou pronta.
Jamais acreditei
e acredito.
Sempre disse e busco não falar.
De algum profundo abismo
foste lançado e eu, longínqua,
aprisionada num outro tempo,
não te evitei, não pude,
sonhada que era por um deus
que desconhece as cronologias
e que te sonha junto,
incansavelmente,
porque nos quer como a si mesmo quer.

Por-me à prova é isso:
inverter-me, inventar-me,
querer-me e evitar-me.
Acordar meus demônios,
invocar meus fantasmas
e fazer voar sobre minha cabeça
os pássaros das tuas fantasias
e dos teus pavores,
esperando que eu não fuja
enquanto te afastas.

Eu fico.
Eu me abandono e te fico,
volátil, invisível, mas presente.
Tua cama, onde os pesadelos te encharcam
de um suor lascivo e triste,
prova que eu estou aí, ao lado,
afundando tudo com meu próprio corpo,
fazendo um dentro
para que descanses, para que não durmas,
para que, acordado, sonhes.

E, se teu destino é fazer ser
e minha sina é te cumprir,
desdenha as chaves,
des-desenha as portas,
desconversa as grades,
apaga o grito e cala a luz.
Não há essa fronteira, já te disse.
Fecha teus olhos fechados,
desiste de ir,
e vem!

quarta-feira, 11 de março de 2009

paris je t'ame.




"Quando eu tinha dez anos de idade, meu pai e eu fizemos uma viagem a Paris, deixando meu irmão mais novo e minha mãe em Londres, onde ela estava fazendo um filme. Meu pai queria um tempo só para nós e isso se estendeu por uma semana. Nós ficamos em um grande hotel e ele disse que eu poderia escolher o que quisesse no café-da-manhã (batatas fritas). Nós fomos ao museu Pompidou, à Torre Eiffel e ao Louvre – como não poderia deixar de ser. Foi maravilhoso. No avião, de volta para Londres, ele me perguntou se eu sabia por que fomos, somente ele e eu, a Paris em um fim-de-semana. Eu disse que não, mas não importava. Me sentia tão sortuda pela viagem que nem havia pensado em um por quê. E então ele disse, “Eu queria que você visse Paris pela primeira vez com um homem que sempre amará você, não importa o que aconteça”. Hoje eu entendo o que ele queria dizer com aquilo. Desde então, Paris foi e continua sendo muito especial para mim. Eu vivi lá por cinco meses em 1994 e já viajei de volta várias vezes. Há lugares em Paris onde, até hoje, eu fico, como, bebo e brindo em pensamento ao meu pai."


terça-feira, 10 de março de 2009

alvorada.


Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva.
No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto.
Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro.
Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo.
E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.

•finalmente mais um dia amanheceu....

segunda-feira, 9 de março de 2009

sem mais nem porquê.


e eis que finalmente chegou o fim propriamente dito. o fim de verdade. aquele fim tão querido por mim, e que agora paradoxalmente, me corroi. estranho a forma como o mundo dá voltas e quem está por cima a qualquer segundo pode cair. prepara-te pra queda, ela é dura, mas amacia. pois com o tempo nem dói mais tanto como antes, uma vez que as feridas já estão feitas, apenas sangram. uma espécie de costume sabe? somado àquele sentimento reconfortante de que daqui a algum tempo o que antes tinha uma dimensão tão grande se tornará nada além de algo microscópico. todas as noite de lagrimas e desespero não serão nem ao menos lembradas, e se for o caso, serão acompanhadas de um pensamento positivo, ou no máximo neutro, de algo que foi, mas que não era pra ser.
o sofrimento é vivido em fases, quem já sofreu nessa vida sabe. já passei da fase do arrependimento, da tristeza, do desespero, da raiva, estou agora na fase da aceitação do fim e do reconhecimento do sentimento.
reconheco e aceito o fim. não adianta insistir em uma coisa que não pode se solidificar, e que no fundo nem quero realmente isso, quero é alimentar o ego que deixou de ser alimentado. patético.
reitero que aceito, aceito o fim, a dor, e o esquecimento. agora por favor tirem essa angustia de mim.

"quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer..."

domingo, 8 de março de 2009

cheiro de choro.


- Falta muito?
- Não, a senhora é a próxima.
Voltou a encostar no sofá de dois lugares. As revistas gastas só faziam-na sentir-se mais prisioneira de um tempo inútil, composto de motivos alheios e resultados nulos.
Sexta-feira: shopping center, salão de beleza, jantar de confraternização... O suceder do mesmo, repetido a cada semana. Não havia mais palavras que levassem a ele, o marido-executivo, sua aversão pelas festas da empresa – torturas agendadas do que, nela, era diferença. Comportar-se como as outras esposas, falar no mesmo tom os mesmos assuntos das outras esposas, ter o mesmo projeto de futuro das outras esposas... Do sapato aos cabelos, todas eram iguais. A cor do vestido, a estampa do casaco, o detalhe do brinco eram apenas disfarces da uniformidade. Um coral: cada uma, na sua voz, compunha a grotesca harmonia do hino à família, ao trabalho, à firma.
- A senhora pode passar.
Sentou na cadeira, corpo todo conformação, conformismo. Examinou, pelo espelho, os gestos do cabeleireiro. As mãos dele faziam-se leves ao tocar seus cabelos. Leveza humilhante, dos que vivem em mundos perfeitos e, por obra de um destino ingrato, se obrigam ao contato com as aberrações.
- Como vai ser? – perguntou ele.
Nem a pergunta mudava! Cinco anos e jamais mudou! Ali não havia lugar para nomes ou ânsias. Ali só havia lugar para cabelos.
- Ainda não sei. Estava pensando em variar um pouco, hoje. Tentar fazer...
Calou, as narinas subitamente desviadas de tudo o que não fosse aquele cheiro a se espalhar, grosso, ácido, pelo salão. Cheiro sem cor, mas negro como um flash explodindo nos olhos. Não perfume, cheiro. Mais que remédio, quase veneno, cheiro - a penetrar em tudo, a tomar conta de tudo. Cheiro-violência, capaz de sacudir, com a mesma força, corpos desfalecidos e mágoas ocultas.
Tonteou, nauseada. O cérebro ardia. Vinha dali, do lado, o cheiro. Vinha da mulher ao lado, dos seus cabelos presos em finos rolos, do líquido perigoso que mãos com luvas derramavam neles.
Mas vinha também daqui, de dentro de si mesma, o cheiro. Vinha de uma criança subitamente ressurgida, fazendo voltar à memória, desmaiada no esquecimento, cabelos, rolos, líquidos, feridas, febres, fracassos.
.
“Ah, mãe, teus sonhos foram pesados demais para a minha cabeça, doídos demais para a minha alma! Tanto esforço teu em me fazer outra, tanto empenho teu em me impor ortopedias de nada adiantaram! Mas eu peguei o vício e continuo, ainda, tentando. Depois de tantos anos, mãe, eu continuo aqui, ridícula, ainda tentando!”

Olhou o espelho. Queria, pela primeira vez, a própria cara. O cabelo escuro e liso, a expressão triste e opaca, a ausência de identidade – quem era esta? Em que lugar e tempo ficara presa, para sempre, a menina machucada por lindos cachos dourados?
Levantou, arrancou o avental do corpo, pegou a bolsa. Ao espanto de todos, falou:
- Preciso ir. Tem uma criança chorando, lá fora. Ela corre perigo. Está sozinha, no escuro, e só consegue abraçar seus joelhos. Preciso ir. Para cuidar dela. Para salvá-la. É muito choro. Ela vai se afogar. É muito choro.
Pagou à recepcionista pelo serviço não feito, cruzou a porta e chegou à rua. E só então percebeu que a rua, a cidade, o país, o planeta eram frios e molhados. Feitos da água do choro de crianças sozinhas.
O cheiro a acordara.

quinta-feira, 5 de março de 2009

disfarça e chora.


— E você, por que desvia o olhar?


(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)


— Ah. Porque eu sou tímida.



•e ele, que odiava entrelinhas, era posto mais uma vez frente a elas.

quarta-feira, 4 de março de 2009

e a a morte voltou como minha.

o nosso amor não vai parar de rolar
de fugir, de seguir como um rio
como uma pedra que divide o rio
me diga coisas bonitas
o nosso amor não vai olhar para traz
desencantar, nem ser tema de livro
a vida inteira eu quiz um verso simples
pra transformar no que eu digo
rimas fáceis, calafrios
fura o dedo faz um pacto comigo
um segundo teu no meu
por um segundo mais feliz.

de volta às mensagens impessoais, na tentativa de abafar o que me sufoca.

terça-feira, 3 de março de 2009

Carta de Valerie


"Sei que não há como convencê-lo que isto não é um truque, mas não faz mal. Sou eu. Meu nome é Valerie. Não creio que viverei muito tempo e quero falar sobre a minha vida. Esta é a única autobiografia que vou escrever e faço isso em papel higiênico. Nasci em Nottingham, em 1985. Não me lembro muito da infância, mas me lembro da chuva. Minha avó tinha uma fazenda e ela dizia que Deus estava na chuva. Fui aprovada no exame para o curso secundário. Na escola, conheci minha primeira namorada, seu nome era Sarah. Foram seus pulsos. Eles eram lindos. Achei que nos amaríamos para sempre. O professor dizia que era uma fase da adolescência que superaríamos. A Sarah superou, eu não superei. Em 2002, eu me apaixonei por uma garota chamada Christina. Naquele ano, contei aos meus pais. Não poderia ter feito isso sem a Chris segurando minha mão. Meu pai não olhou para mim, disse-me para ir embora e nunca mais voltar. Minha mãe não falou nada. Mas eu só contei a verdade a eles, isso foi egoísmo demais? Nossa integridade vale tão pouco, mas é tudo o que temos, é o mais importante em nós. Mantendo a nossa integridade somos livres. Sempre soube o que queria da vida. Em 2005 eu estrelei meu primeiro filme, “As Dunas de Sal”. Foi o papel mais importante da minha vida, não pela carreira mas sim porque conheci a Ruth. Na primeira vez em que nos beijamos eu soube que nunca mais iria querer beijar outros lábios. Nós nos mudamos para um apartamento em Londres. Ela plantou Scarlet Carsons para mim na janela e nosso apartamento sempre cheirava a rosas. Foram os melhores anos da minha vida. Mas a guerra nos EUA foi piorando e, no fim, chegou a Londres. Depois disso, não havia mais rosas, não para todos. O significado das palavras começou a mudar. Palavras como "colateral" e "rendição" inspiravam medo enquanto ganhavam força "Nórdica Chama" e "Artigos de Submissão". Lembro de como "diferente" virou "perigoso". Ainda não entendo porque nos odeiam tanto. Eles levaram a Ruth enquanto ela comprava comida. Nunca chorei tanto na minha vida. Não demorou para virem me buscar. Parece estranho terminar a vida em um lugar tão horrível mas durante três anos eu tive rosas e não pedi desculpas a ninguém. Eu morrerei aqui. Cada pedaçinho do meu ser perecerá. Cada pedaçinho... menos um. O da integridade. É pequeno e frágil e é a única coisa que vale a pena ter. Nós jamais devemos perdê-lo. Nem deixar que o tomem de nós. Espero que, quem quer que você seja, escape daqui. Espero que o mundo mude e a vida fique melhor. Mas o que eu mais quero é que entenda a minha mensagem quando falo que mesmo sem conhecer você e mesmo que talvez jamais conheça você, ria com você, chore com você, ou beije você... eu amo você. De todo o coração... eu amo você."
Valerie.


" Trecho do filme "V de vingança".