segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

sobre você, devagar.


Sobre você, devagar. Sobre seus olhos, movimento-me como as marés. Eu os admiro em câmera lenta como se na direção deles desprendesse os pés da pedra no salto final, num mergulho. São olhos de oceano, tão claros que até o mundo fica mais nítido em seu reflexo. Sobre você, devagar. O mundo não se resume mais nos quadris, mas onde quer que haja contato, onde quer que você me engula e eu engula você. Somos ondas, somos espuma. Isso que pingou no seu rosto, não é lágrima de alegria. É água do mar.
No dia que em que surgiu você, saltei para fora do silêncio - e o silêncio é uma coisa densa. O sol pulverizou pedras. E o dia em que você está começa não com um sorriso, mas gargalhadas. é uma espécie de hino feito de aurora. Finalmente, depois de tanto tempo, entendo a palavra júbilo. Pássaro azul vezes mil, doce preferido vezes mil, beijo único, beijo primeiro.
Beijo, sim, seus pés que a trouxeram até mim. Percorro, sim, minha boca por todas, todas mesmo, todas as partes de que é feita você. Assim, meus lábios não dizem o seu nome. Mas, ao contrário, o relevo de seu corpo explica como devo chamá-la quando estiver sozinho e quiser sonhar com sua pele. Seu corpo tem um nome ainda a ser apreendido. Reconheço-me no seu relevo com a língua, sua alma é um sabor.
Sobre você, devagar, como num sábado, quando não há pressa e não há vida lá fora.Você descobre-me movimentos que nem eu imaginava. Decifra em meu sorrir não os dentes, sempre mais para morder, mas um detalhe da face. No falar, não as palavras, mas uma sutileza nas pausas, que já se flagra a imitar, sem querer. Estar junto é estar meio igual.
Sobre você, devagar. Como se o mundo fosse ter fim no próximo instante. Pressa pra quê?Deixe que o telefone toque. Deixe que alguém bata à porta. Deixe que as contas cheguem. Que os advogados me processem. Deixe que os vizinhos, sempre eles, reclamem do barulho. Deixe que o prédio pegue fogo e que a noite não caia e que o sol não nasça e que os relógios parem e que os animais comecem a falar. Deixe que a estupidez tome conta do planeta. Deixe que a mentira tome conta do planeta. Deixe que a indecência tome conta do planeta. Neste quarto, sobre você, devagar, contaminamos tudo o que nos cerca com sabedoria e verdade. Fui santificado ao aconchegar-me entre suas pernas. Sinto realmente luzes em torno da cabeça. Quero você em mim como um farol e em você sempre minha atenção voltada para onde devo ir. Somos nós os navios a atravessar o improvável. Diz-me para onde aponta sua bússola para que eu saiba para onde girar meu leme.
Sobre você, devagar, as histórias passam rápido. Pois paramos de repente, sem avisar. Tudo nos ultrapassa. Árvores crescem em torno. Precisamos de sombra, precisamos de frutas, precisamos de abrigo. É vital que aqui permaneçamos sem interrupções. É vital que o meu sangue seja o seu e por isso não pode haver tais interrupções. Todos sabem que o fluxo das artérias deve ser constante a fim de que haja vida. Aqui, sobre você, devagar, há muita.Não sei onde estou, não sei mais de onde vim. Dispenso esses conhecimentos, que agora só resta um caminho em frente e corro para esses lados. Sou o último de uma espécie.
Sobre você, devagar, como se nunca fosse acabar. Isso, agora, foi só uma gota. Dizem que o mar é infinito. Eu mesmo nunca vi o fim.

sábado, 27 de dezembro de 2008

assim seja. ( e será)




"hoje é um novo dia de um novo tempo que começou."
essa frase sempre tão dita e repetida ao disseminar-se através da globo e da globalização, de tão dita fora banalizada, ao menos por mim, e nunca vira alvo de reflexão. nunca até a virada deste ano. é, este em especial. não tenho do que reclamar de 2008 na verdade, fora um ano de muitas experiência, aprendizagens, conhecimentos, mudanças, seletividade, entretanto não pelo melhor dos caminhos. e ao, finalmente, reconhecer e aceitar isso, não me resta alternativas a não ser mudar de caminho ou ao menos aprimora-lo, molda-lo à minha realidade. todo ano novo escolho um lema de vida: a palavra chave de 2009 será mudança. e uma mudança ligada à razão, à racionalidade e a responsabilidade. não é possivel aventurar-se sem assumir as futuras consequências, eu sabia que teria que assumí-las. entao diga ao povo que as assumo, ao mesmo tempo em que evito novas surpresas. é preciso ponderação, coisa que não tive, mas esse ano eu vivi, posso afirmar isso com certeza, vivi, me permiti, e fui feliz. é, eu fui feliz. mas o que antes me alimentava, me dava prazer, agora trás mais o mal que o bem, e quando isso ocorre simboliza a hora do fim. triste fim, mas não o de policarpo quaresma. e sim o meu. mas não há nada que não possa ser solucionado, se tomadas e seguidas as devidas providências. chega de uma vida que não me conforta nem me aquieta em nada. o que pode ser emocionante no início, torna-se cansativo e sem sentido depois. quero paz no meu coração, conhecer o amor de verdade, compartilhar com alguém os meus maiores medos, anseios, segredos e desejos, chorar ao fazer amor, ter filhos e poder construir uma familia linda. e com a vida que estava levando isso não era possivel, então é hora de focar-me ao que mais importa e priorizar a unica pessoa que pode me fazer feliz: eu mesma. é hora de cuidar de mim.


feliz ano novo pra mim, e pra você.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

misto de aguardente e água-de-flor.


Sou pessoa de dentro pra fora. Minha beleza está na minha essência e no meu caráter. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje...Amanhã, já me reinventei. Reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim. Sou complexa, sou mistura, sou mulher com cara de menina... E vice-versa. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar...Não me dôo pela metade, não sou tua meio amiga nem teu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Não suporto meio termos. Sou boba, mas não sou burra. Ingênua, mas não santa.
Sou mulher de riso fácil...e choro também!

sábado, 20 de dezembro de 2008

jornal das pequenas coisas.


Na manhã de domingo, Dona Epifânia, uma senhora de 73 anos, perdeu a chave do seu porãozinho. Esfregou a testa. Chacoalhou a cabeça. Mas, tal qual um fio com mau contato, nada do que fizesse parecia ajudar a sua combalida memória. Na mesma parede, dezenas de formigas estavam separadas pelas catástrofes dos últimos instantes: uma porta que, num rangido estrondoso, abrira-se numa fenda de mais de 7 cm da escala Ritcher. Dona Epifânia, sem esperança de encontrar a chave, vê um cadarço jogado e une porta e batente. As formigas, mesmo feridas, atravessam a ponte de pano, na maior mobilização já vista. Em todos os formigueiros, a operação resgate foi transmitida ao vivo. Algumas formigas ajustavam as antenas para eliminar os chuviscos da imagem. Por fim, Dona Epifânia, sem saber de nada que acontecia no reino das formigas, afundou-se no sofá para assistir ao jornal. Das notícias grandes, é claro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

homem de lata.


Encosto o meu dedo em sua pele, mas ela não afunda. Não é possível.
Desabotôo a sua camisa e deito a minha cabeça em seu peito, meu homem de lata.
Diante do novo segredo, eu queria chorar, mas posso enferrujá-lo.
Então, como você viveria em paz sem a sua armadura?
Sem nada entender, você se vira e vai embora.
E só então eu percebo: a sua armadura é furada, meu amor.
Nas centenas de furos sobre a armadura de lata, vão sendo aguadas todas as plantinhas ao seu redor.
Você é, na verdade, um lindo homem regador.
'
•Jornal das pequenas coisas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

com minha dor não se brinca, já disse que não.




Depois de chorar até a noite clarear, os seus olhos incharam, pareciam duas tulipas vermelhas que não sabiam em qual jardim estavam. Mal sabia porque chorava, esqueceu até porque sofria. Todas as gotas do oceano resolveram se encontrar dentro dela? Chorou até secar por dentro. Dormiu até o sono esquecer porque existia. Sentir-se sozinha é assim? Ela não sabia. Nunca soubera o verdadeiro significado da palavra solidão. Agora ela sabe.
Mas quando acordou, pegou as duas tulipas e as colocou em um vaso com água doce. Eu mereço um jardim florido e sorrisos de amor, dia sim, outro também, ela pensou.
E mais nada.

sábado, 13 de dezembro de 2008

perpetuando a liberdade.


Hoje sonhei que podia voar.
Voei longe, onde ninguém poderia me tocar, o céu era azul e rosa com nuvens em formato de eternamente. Meu coração ia explodir, era tardezinha, o sol no horizonte e o ar frio não deixavam nada a desejar. Eu quero ir alto - Pensei - Se estou aqui posso fugir. E corri das mentiras que pensei que eram minhas, porém saiam de sua boca. Continuei voando, a garota alada...
Que lindo era, hoje vou voar de novo.
(: