
Ele esfrega as mãos nas minhas costas, sabendo que eu preciso mesmo ser acesa o tempo todo, pra não sucumbir a essas coisas gélidas que me atravessam. E ri, o tempo todo, ele ri, como é feliz! E eu embarco em mais um trem (às vezes fantasma, dessa vez o da alegria) mesmo odiando viajar. Eu vou porque é preciso ter histórias, viver coisas, sair de casa, mas nunca vou realmente. Sempre me sinto ocupando de favor o lugar da personagem real que está doente ou enlouqueceu. Assim que coloco o pé pra fora, viro uma substituta de qualquer um que sabe viver. Uma coadjuvante de mim que rouba a cena porque os engracados sempre roubam. Experimento pessoas como experimento comida baiana, “tá, deixa eu ver que gosto tem, mas não muito pra não morrer aqui, longe de casa, debaixo desse sol e dessa alegria”. Assim que chego em casa e abraço meu único e verdadeiro marido, meu silêncio, sou eu mesma e nada pode dar errado ou acabar. Ele ri mais um pouco, segura firme na minha mão, eu quero contar, ele merece saber, eu estou amando e super feliz de brincar de amar e ser feliz, mas olha, querido, daqui a pouco eu volto pra ele. O silêncio. A seguranca. Eu sempre volto pro silêncio. Mas agora acelera aí, apita, solta fumaça, sei lá como é andar de trem, mas sempre ando. Vamos ver até onde eu aguento dessa vez.

Um comentário:
ai , eu estaria feliz se tivesse sido eu que fosse a moça q escreve tão bem!! perfeirto o texto!
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