quinta-feira, 30 de abril de 2009

e nada poderá te causar dano.


"Então, novamente, uma profunda paz inundou-a, e Veronika tornou a olhar o céu estrelado, com a lua em quarto crescente - a sua favorita - enchendo de luz suave o lugar onde se encontrava. Veio de novo a sensação de que o infinito e a eternidade andavam de mãos dadas, e bastava contemplar um deles - como o universo sem limites - para notar a presença do outro, o tempo que não termina nunca, que não passa, que permanece no presente, onde estão todos os segredos da vida. Entre a enfermaria e a sala ela fora capaz de odiar, tão forte e tão intensamente, que não lhe sobrara nenhum rancor no coração. Deixara que seus sentimentos negativos, represados durante anos em sua alma, viessem finalmente à tona. Ela os tinha sentido, e agora não eram mais necessários, podiam partir.Ficou em silêncio, vivendo seu momento presente, deixando que o amor ocupasse o espaço vazio que o ódio deixara. Quando sentiu que chegara o momento, virou-se para a lua e tocou no piano uma sonata em sua homenagem - sabendo que ele a escutava, ficava orgulhosa, e isto provocava ciúmes nas estrelas. Tocou então uma música para as estrelas, outra para o jardim, e uma terceira para as montanhas que não podia ver a noite, mas sabia que estavam lá. No meio da música para o jardim, outro louco apareceu na esfermaria - Edward, um esquisofrênico que estava além da possibilidade de cura. Ela não se assustou com sua presença: ao contrário, sorriu, e para sua surpresa ele sorriu de volta.Também no seu mundo distante, mais distante do que a lua, a música era capaz de penetrar e fazer milagres."


Veronika decide morrer - Paulo Coelho

terça-feira, 28 de abril de 2009

sol e lua, lua e mãos.


Ela dança as fases da lua
tece vento e no ar rodopia
põe no colo os bichos das ruas
põe no chão quem quer correria
põe as mãos de alguém entre as suas
e é o nascer de um sol, mais um dia

Do aroma rosa da arte
ela extrai a cor da alegria
do lilás do olhar de quem parte
faz o azul de quem ficaria
do vermelho ardor do estandarte
o nascer de um sol, mais um dia

Tem a solidão do poeta
a paixão da chuva tardia
escultora da linha reta
que a luz percorre e esta via
salta do seu olho, é uma seta
o nascer do sol, mais um dia

São brilhos de estrelas na perna
e a noite que a estrela anuncia
a paixão é estranha caverna
quem tem medo e amor já sabia
uma noite nunca é eterna
é o nascer do sol, mais um dia

Ela pisa as ruas do tempo
já foi louca, princesa e Maria
faz de azul mais que cor, sentimento
mina d'água, azul, poesia
faz soar as rimas que invento
e é o nascer do sol, mais um dia.

sábado, 25 de abril de 2009

bar ruim é lindo, bicho.




Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins.Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem).No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história.Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura."Ô Betão, traz mais uma pra gente", eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil.Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha.Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil.Assim como não é qualquer bar ruim.Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse.O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas.Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó.Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV.Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider.Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico.E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem.Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo.Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato.Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil!Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo.Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?




Por Antonio Prata, fazendo das dele as minhas palavras.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

mais cristina que vick, barcelona.


um filme simples, porém genial em sua simplicidade.
para mim, talvez não para você.
se você não tiver bom gosto é claro!
serviu de relexão, de compreensão, de alerta, e até mesmo de conforto!
me fez entender um pouco mais a mim mesma.
e perceber algo de bonito nas minhas estranhezas.
perceber que elas vão bem além dessas picuinhas de ego.
que não sou pior que ninguém devido a minha maneira de ser e querer as coisas, devido a minha intabilidade de relacionamentos ou inconstância de pensamentos.
inconstância... as vezes as palavras me soam estranhas!
enfim...
percebi também que não há nada de errado em ser tão exigente, esperar mais das pessoas, além desses clichês chatos e pessoas fabricadas em série!
em série já lembra capitalismo, fordismo e derivados.
ok, o capitalismo é maravilhoso, adoro mc donalds, coca cola e diesel.
más acho charmoso falar mal dele!
acho charmoso barzinhos boêmios, musicas com conteúdo, pessoas de conteúdo, um papo interessante e um beijo caliente no fim da noite com direito a palavras bonitas, sensuais, porém diferentes de tudo que costumava escutar. gostosa é a tia! (ok, não foi boa. qm fala gostosa é a tia hoje em dia?)
cristina me ensinou que a vida é feita de pequenos momentos. aliás, não me ensinou. apenas me confirmou, me fez enxergar isso de outra forma e ver que eu sou tão torta assim.
vai ver até sou, mas ei, é legal ser torta!
pra mim vale mais a pena uma vida formada de pequenos momentos, porém intensos. grande paixões, mas efêmeras. são eternas e românticas porque são impossíveis.
*falarei sobre o fim do filme, aqueles que não gostam de emoções fortes (não gostam de saber o final dos filmes que ainda não viram e querem ver, porque, sim, vocês tem que querer ver esse filme) por favor não continuem a leitura, obrigada.
no fim é perceptível que todos, apesar de terem suas vidas mudadas ao cruzar seus destinos, voltam para a estaca zero.
a sem graça continua sem graça, num casamento falido e com desejo sexual retraido por Juan Antonio, que está mais para Don Juan de Marco.
cristina continua em busca de novas aventuras, feliz pelo que foi vivido, mais experiente, madura e feliz na sua singularidade.
e o casal que foi feito e não foi feito um para o outro ao mesmo tempo, continua na mesma ladainha. amor, sexo, brigas, tentativa de assassinato, homicídio, reconciliaçãos, e por aí vai...
algumas paixoes chegam a pontos que não devem chegar e as vezes não tem cura.
são normalmente chamadas de doença.
mas ficar doente é bom depois de se curar, podemos não ficar sempre imunes, mas ao menos já temos uma ligeira idéia de como se tratar.
enfim...
o filme me encantou, me marcou, me mudou, me fez me aceitar assim.
cheia de defeitos, estranhezas, mas uma eterna apaixonada e dançarina do efêmero.
.
• texto estranho. mais desabafo que texto, na verdade. estou estranha hoje. mas tenho esse direito sometimes. relevem!

terça-feira, 21 de abril de 2009

os sete tons de branco.


Seis da manhã. A praia está deserta. Lua e estrelas foram embora, sol ainda nem chegou. Gosto de juntar-me à praia a essa hora; as vozes que encontro falam com minhas vozes, os movimentos que sinto movimentam-me e pensar é uma gaivota que mergulha no mar, desaparece por segundos e retorna, alimento à boca.
Meus pés deixam marcas na areia. Marcas transitórias. A água das ondas sabe como apagá-las melhor que eu. Sabe extinguir os vestígios, produzir o esquecimento. Melhor que eu.
Memória. Quero esquecer os dias vividos até o dia de hoje.
Memória. Os barcos jogam a âncora no mar quando se querem parados, em segurança. A âncora é o oposto de ir. A memória também.
Gosto de juntar-me à praia para ir. A praia é o convite à dissolução, à perda das referências. A praia cria arco-íris em sete tons de branco. No início e no fim do arco-íris, o mesmo tesouro - o pote dourado cheio do nada. Ver o nada como tesouro, é o que a praia ensina.
Quase ao final da enseada eu o avisto. Está próximo às pedras, sentado entre gravetos escuros, conchas miúdas, detritos vários – ressacas do mar. Mistura-se à sujeira sem nojo algum. É o que primeiro me faz admirá-lo - o desconhecido que hoje povoa a praia não tem medo da imundície, não se importa com ela.
Como quem não o vê, continuo minha caminhada. Em direção a ele. Não forço a trajetória, não preciso. Ele faz parte da minha trilha habitual.
Estou junto a ele, agora. É um homem muito magro. Está descalço e tem os pés machucados, como eu. Posso mais que vê-lo, posso tocá-lo, senti-lo, se quiser. Não sei se quero. Sento-me a seu lado e o imito - olho, perdida, o horizonte.
Ele desenha palavras na areia com um graveto que vai se quebrando em pedaços cada vez menores. Tento entender o que leio. Nada faz muito sentido.

mocha rido
bo iteri
fe ca
dau pari
to radepa coco

Desenho, eu também, na areia. Um sol. Ele olha meu desenho, olha para mim e, em movimentos que são quase espasmos, apaga as palavras. No lugar delas cava um buraco, cospe dentro.
Apago eu também o sol que fiz. A boca seca, descubro - não sei cuspir.
Falar é mais que desnecessário, é perigoso. Não arrisco. Ele pode sumir sob o peso das palavras, esse homem que tem a fragilidade das conchas e o brilho do dia. Ele me olha. Com olhos doidos, doídos, com os olhos da lucidez que vem do outro lado onde eu ainda não fui, ele me olha. E Fico a seu lado quase pedindo perdão por estar ali.

domingo, 19 de abril de 2009

entre um blues amargo e um poema de vanguarda.


Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.