
"O tempo passa e um dia a gente aprende." Sempre ouvi essa frase com pouca fé, e pouca luta. Talvez por acreditar que esse dia nunca chegaria, talvez, e mais provavelmente, por não almeijar que ele chegasse. Vontade hipócrita. Por gostar dessa sensacão superficial de um sentimento insano, me preenchendo de vazio e transbordando amargura. Hoje finalmente me sinto lúcida. Eu costumava te amar, mas agora eu estou sóbria. Posso enxergar que ninguém entendia o que tínhamos porque não era uma coisa normal, passava longe de ser algo saudável. Eu cultivava você dentro de mim, alimentando-o diariamente, e sempre que você chegava ao seu leito de morte, já fraco e subnutrido, eu rasgava os pulsos pra você beber, e você bebia cada gota sagrada de sangue. Hoje não consigo entender como uma mulher como eu se deixou passar tanto tempo nas trevas, vivendo na sua sombra, seguindo seus passos. Como pude me diminuir tanto? Ser tão escrava de uma vida que não me acrescentava em nada, não me preenchia, não me findava. Eu sabia, mas no fundo não queria acreditar, que esse dia ia chegar, e que eu iria me arrepender por cada segundo perdido ao seu lado, somando na sua presença insignificante, na sua inércia, no nada que é você. Bege. Quanto atraso de vida, quanto tempo perdido, quantas oportunidades desperdiçadas. Pra que? Pra ajudar alguém que não quer ser ajudado, mudar alguém que não muda, é seu baby,conforme-se. É intrinseco a você, sua natureza, esse mofo, esse limo, essa lama. A linha branca em volta do corpo que já levaram, e que mesmo assim me relaciono. Com o que não existe mais, com a cadeira que puxaram e eu sentei. Definitivamente não nasci para ser a muleta de alguém. Não sei em Milão, em Ny, mas esse estilo de vida a lá Madre Tereza de Calcutá, ao menos ao meu ver, está cada dia mais oldfashion. Não consigo nem cuidar dos meus pensamentos. Atabalhoados. Pensamentos que precisavam ser inventados, lembranças criadas, para continuar sentindo saudade de você. Like a desease. Me rasgando diariamente, pra você e em mim. Dentro-dentro-dentro, fundo. Mas viver é um rasgar-se e emendar-se. Emendo-me agora. Lúcida. Sóbria. Nada deve permanecer em sua vida mais tempo do que o necessário, nada é definitivo, precisamos inovar. Hoje eu comecei minha faxina, eu to jogando tudo fora. Tudo o que não me serve mais, todo lixo que acumulei, seja bem vindo, novo. Seja bem vindo você que me viu passar na rua e que eu nem percebi, porque estava ocupada demais me auto-destruindo, auto-sabotando. Alimentando algo que já estava morto. Agora é hora de matar quem já está morto. Crime impossivel. Pó acumulado sobre as emoçoes, e a nítida impressão de que já vou tarde. Quando o dia que você mais esperou que chegasse nos ultimos anos finalmente chega, whats next? Para ser honesta, eu sinceramente não sei, mas me sinto inundar por uma paz incrivel. Um encontro com uma vontade avassaladora de viver. Escrevo agora, enquanto dura essa música, não para dizer algo, mas para APAGAR.





