
Seis da manhã. A praia está deserta. Lua e estrelas foram embora, sol ainda nem chegou. Gosto de juntar-me à praia a essa hora; as vozes que encontro falam com minhas vozes, os movimentos que sinto movimentam-me e pensar é uma gaivota que mergulha no mar, desaparece por segundos e retorna, alimento à boca.
Meus pés deixam marcas na areia. Marcas transitórias. A água das ondas sabe como apagá-las melhor que eu. Sabe extinguir os vestígios, produzir o esquecimento. Melhor que eu.
Memória. Quero esquecer os dias vividos até o dia de hoje.
Memória. Os barcos jogam a âncora no mar quando se querem parados, em segurança. A âncora é o oposto de ir. A memória também.
Gosto de juntar-me à praia para ir. A praia é o convite à dissolução, à perda das referências. A praia cria arco-íris em sete tons de branco. No início e no fim do arco-íris, o mesmo tesouro - o pote dourado cheio do nada. Ver o nada como tesouro, é o que a praia ensina.
Quase ao final da enseada eu o avisto. Está próximo às pedras, sentado entre gravetos escuros, conchas miúdas, detritos vários – ressacas do mar. Mistura-se à sujeira sem nojo algum. É o que primeiro me faz admirá-lo - o desconhecido que hoje povoa a praia não tem medo da imundície, não se importa com ela.
Como quem não o vê, continuo minha caminhada. Em direção a ele. Não forço a trajetória, não preciso. Ele faz parte da minha trilha habitual.
Estou junto a ele, agora. É um homem muito magro. Está descalço e tem os pés machucados, como eu. Posso mais que vê-lo, posso tocá-lo, senti-lo, se quiser. Não sei se quero. Sento-me a seu lado e o imito - olho, perdida, o horizonte.
Ele desenha palavras na areia com um graveto que vai se quebrando em pedaços cada vez menores. Tento entender o que leio. Nada faz muito sentido.
Meus pés deixam marcas na areia. Marcas transitórias. A água das ondas sabe como apagá-las melhor que eu. Sabe extinguir os vestígios, produzir o esquecimento. Melhor que eu.
Memória. Quero esquecer os dias vividos até o dia de hoje.
Memória. Os barcos jogam a âncora no mar quando se querem parados, em segurança. A âncora é o oposto de ir. A memória também.
Gosto de juntar-me à praia para ir. A praia é o convite à dissolução, à perda das referências. A praia cria arco-íris em sete tons de branco. No início e no fim do arco-íris, o mesmo tesouro - o pote dourado cheio do nada. Ver o nada como tesouro, é o que a praia ensina.
Quase ao final da enseada eu o avisto. Está próximo às pedras, sentado entre gravetos escuros, conchas miúdas, detritos vários – ressacas do mar. Mistura-se à sujeira sem nojo algum. É o que primeiro me faz admirá-lo - o desconhecido que hoje povoa a praia não tem medo da imundície, não se importa com ela.
Como quem não o vê, continuo minha caminhada. Em direção a ele. Não forço a trajetória, não preciso. Ele faz parte da minha trilha habitual.
Estou junto a ele, agora. É um homem muito magro. Está descalço e tem os pés machucados, como eu. Posso mais que vê-lo, posso tocá-lo, senti-lo, se quiser. Não sei se quero. Sento-me a seu lado e o imito - olho, perdida, o horizonte.
Ele desenha palavras na areia com um graveto que vai se quebrando em pedaços cada vez menores. Tento entender o que leio. Nada faz muito sentido.
mocha rido
bo iteri
fe ca
dau pari
to radepa coco
bo iteri
fe ca
dau pari
to radepa coco
Desenho, eu também, na areia. Um sol. Ele olha meu desenho, olha para mim e, em movimentos que são quase espasmos, apaga as palavras. No lugar delas cava um buraco, cospe dentro.
Apago eu também o sol que fiz. A boca seca, descubro - não sei cuspir.
Falar é mais que desnecessário, é perigoso. Não arrisco. Ele pode sumir sob o peso das palavras, esse homem que tem a fragilidade das conchas e o brilho do dia. Ele me olha. Com olhos doidos, doídos, com os olhos da lucidez que vem do outro lado onde eu ainda não fui, ele me olha. E Fico a seu lado quase pedindo perdão por estar ali.
Apago eu também o sol que fiz. A boca seca, descubro - não sei cuspir.
Falar é mais que desnecessário, é perigoso. Não arrisco. Ele pode sumir sob o peso das palavras, esse homem que tem a fragilidade das conchas e o brilho do dia. Ele me olha. Com olhos doidos, doídos, com os olhos da lucidez que vem do outro lado onde eu ainda não fui, ele me olha. E Fico a seu lado quase pedindo perdão por estar ali.

3 comentários:
Queria desenhar palavras na praia com você. Desenharia um sorriso de palavras para dizer que teu texto é lindo. Como vc.
Beijo
Que coisa fantástica essa rede que se forma com os "blogs dos blogs". A gente visita um e encontra outro lindo como este. Maravilhoso texto.
Parabéns!
Lygia
Não é loucura
Não é pesadelo
Não é ilusão
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