segunda-feira, 9 de março de 2009

sem mais nem porquê.


e eis que finalmente chegou o fim propriamente dito. o fim de verdade. aquele fim tão querido por mim, e que agora paradoxalmente, me corroi. estranho a forma como o mundo dá voltas e quem está por cima a qualquer segundo pode cair. prepara-te pra queda, ela é dura, mas amacia. pois com o tempo nem dói mais tanto como antes, uma vez que as feridas já estão feitas, apenas sangram. uma espécie de costume sabe? somado àquele sentimento reconfortante de que daqui a algum tempo o que antes tinha uma dimensão tão grande se tornará nada além de algo microscópico. todas as noite de lagrimas e desespero não serão nem ao menos lembradas, e se for o caso, serão acompanhadas de um pensamento positivo, ou no máximo neutro, de algo que foi, mas que não era pra ser.
o sofrimento é vivido em fases, quem já sofreu nessa vida sabe. já passei da fase do arrependimento, da tristeza, do desespero, da raiva, estou agora na fase da aceitação do fim e do reconhecimento do sentimento.
reconheco e aceito o fim. não adianta insistir em uma coisa que não pode se solidificar, e que no fundo nem quero realmente isso, quero é alimentar o ego que deixou de ser alimentado. patético.
reitero que aceito, aceito o fim, a dor, e o esquecimento. agora por favor tirem essa angustia de mim.

"quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer..."

domingo, 8 de março de 2009

cheiro de choro.


- Falta muito?
- Não, a senhora é a próxima.
Voltou a encostar no sofá de dois lugares. As revistas gastas só faziam-na sentir-se mais prisioneira de um tempo inútil, composto de motivos alheios e resultados nulos.
Sexta-feira: shopping center, salão de beleza, jantar de confraternização... O suceder do mesmo, repetido a cada semana. Não havia mais palavras que levassem a ele, o marido-executivo, sua aversão pelas festas da empresa – torturas agendadas do que, nela, era diferença. Comportar-se como as outras esposas, falar no mesmo tom os mesmos assuntos das outras esposas, ter o mesmo projeto de futuro das outras esposas... Do sapato aos cabelos, todas eram iguais. A cor do vestido, a estampa do casaco, o detalhe do brinco eram apenas disfarces da uniformidade. Um coral: cada uma, na sua voz, compunha a grotesca harmonia do hino à família, ao trabalho, à firma.
- A senhora pode passar.
Sentou na cadeira, corpo todo conformação, conformismo. Examinou, pelo espelho, os gestos do cabeleireiro. As mãos dele faziam-se leves ao tocar seus cabelos. Leveza humilhante, dos que vivem em mundos perfeitos e, por obra de um destino ingrato, se obrigam ao contato com as aberrações.
- Como vai ser? – perguntou ele.
Nem a pergunta mudava! Cinco anos e jamais mudou! Ali não havia lugar para nomes ou ânsias. Ali só havia lugar para cabelos.
- Ainda não sei. Estava pensando em variar um pouco, hoje. Tentar fazer...
Calou, as narinas subitamente desviadas de tudo o que não fosse aquele cheiro a se espalhar, grosso, ácido, pelo salão. Cheiro sem cor, mas negro como um flash explodindo nos olhos. Não perfume, cheiro. Mais que remédio, quase veneno, cheiro - a penetrar em tudo, a tomar conta de tudo. Cheiro-violência, capaz de sacudir, com a mesma força, corpos desfalecidos e mágoas ocultas.
Tonteou, nauseada. O cérebro ardia. Vinha dali, do lado, o cheiro. Vinha da mulher ao lado, dos seus cabelos presos em finos rolos, do líquido perigoso que mãos com luvas derramavam neles.
Mas vinha também daqui, de dentro de si mesma, o cheiro. Vinha de uma criança subitamente ressurgida, fazendo voltar à memória, desmaiada no esquecimento, cabelos, rolos, líquidos, feridas, febres, fracassos.
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“Ah, mãe, teus sonhos foram pesados demais para a minha cabeça, doídos demais para a minha alma! Tanto esforço teu em me fazer outra, tanto empenho teu em me impor ortopedias de nada adiantaram! Mas eu peguei o vício e continuo, ainda, tentando. Depois de tantos anos, mãe, eu continuo aqui, ridícula, ainda tentando!”

Olhou o espelho. Queria, pela primeira vez, a própria cara. O cabelo escuro e liso, a expressão triste e opaca, a ausência de identidade – quem era esta? Em que lugar e tempo ficara presa, para sempre, a menina machucada por lindos cachos dourados?
Levantou, arrancou o avental do corpo, pegou a bolsa. Ao espanto de todos, falou:
- Preciso ir. Tem uma criança chorando, lá fora. Ela corre perigo. Está sozinha, no escuro, e só consegue abraçar seus joelhos. Preciso ir. Para cuidar dela. Para salvá-la. É muito choro. Ela vai se afogar. É muito choro.
Pagou à recepcionista pelo serviço não feito, cruzou a porta e chegou à rua. E só então percebeu que a rua, a cidade, o país, o planeta eram frios e molhados. Feitos da água do choro de crianças sozinhas.
O cheiro a acordara.

quinta-feira, 5 de março de 2009

disfarça e chora.


— E você, por que desvia o olhar?


(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)


— Ah. Porque eu sou tímida.



•e ele, que odiava entrelinhas, era posto mais uma vez frente a elas.

quarta-feira, 4 de março de 2009

e a a morte voltou como minha.

o nosso amor não vai parar de rolar
de fugir, de seguir como um rio
como uma pedra que divide o rio
me diga coisas bonitas
o nosso amor não vai olhar para traz
desencantar, nem ser tema de livro
a vida inteira eu quiz um verso simples
pra transformar no que eu digo
rimas fáceis, calafrios
fura o dedo faz um pacto comigo
um segundo teu no meu
por um segundo mais feliz.

de volta às mensagens impessoais, na tentativa de abafar o que me sufoca.

terça-feira, 3 de março de 2009

Carta de Valerie


"Sei que não há como convencê-lo que isto não é um truque, mas não faz mal. Sou eu. Meu nome é Valerie. Não creio que viverei muito tempo e quero falar sobre a minha vida. Esta é a única autobiografia que vou escrever e faço isso em papel higiênico. Nasci em Nottingham, em 1985. Não me lembro muito da infância, mas me lembro da chuva. Minha avó tinha uma fazenda e ela dizia que Deus estava na chuva. Fui aprovada no exame para o curso secundário. Na escola, conheci minha primeira namorada, seu nome era Sarah. Foram seus pulsos. Eles eram lindos. Achei que nos amaríamos para sempre. O professor dizia que era uma fase da adolescência que superaríamos. A Sarah superou, eu não superei. Em 2002, eu me apaixonei por uma garota chamada Christina. Naquele ano, contei aos meus pais. Não poderia ter feito isso sem a Chris segurando minha mão. Meu pai não olhou para mim, disse-me para ir embora e nunca mais voltar. Minha mãe não falou nada. Mas eu só contei a verdade a eles, isso foi egoísmo demais? Nossa integridade vale tão pouco, mas é tudo o que temos, é o mais importante em nós. Mantendo a nossa integridade somos livres. Sempre soube o que queria da vida. Em 2005 eu estrelei meu primeiro filme, “As Dunas de Sal”. Foi o papel mais importante da minha vida, não pela carreira mas sim porque conheci a Ruth. Na primeira vez em que nos beijamos eu soube que nunca mais iria querer beijar outros lábios. Nós nos mudamos para um apartamento em Londres. Ela plantou Scarlet Carsons para mim na janela e nosso apartamento sempre cheirava a rosas. Foram os melhores anos da minha vida. Mas a guerra nos EUA foi piorando e, no fim, chegou a Londres. Depois disso, não havia mais rosas, não para todos. O significado das palavras começou a mudar. Palavras como "colateral" e "rendição" inspiravam medo enquanto ganhavam força "Nórdica Chama" e "Artigos de Submissão". Lembro de como "diferente" virou "perigoso". Ainda não entendo porque nos odeiam tanto. Eles levaram a Ruth enquanto ela comprava comida. Nunca chorei tanto na minha vida. Não demorou para virem me buscar. Parece estranho terminar a vida em um lugar tão horrível mas durante três anos eu tive rosas e não pedi desculpas a ninguém. Eu morrerei aqui. Cada pedaçinho do meu ser perecerá. Cada pedaçinho... menos um. O da integridade. É pequeno e frágil e é a única coisa que vale a pena ter. Nós jamais devemos perdê-lo. Nem deixar que o tomem de nós. Espero que, quem quer que você seja, escape daqui. Espero que o mundo mude e a vida fique melhor. Mas o que eu mais quero é que entenda a minha mensagem quando falo que mesmo sem conhecer você e mesmo que talvez jamais conheça você, ria com você, chore com você, ou beije você... eu amo você. De todo o coração... eu amo você."
Valerie.


" Trecho do filme "V de vingança".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

mas quando chega o fim, você tem que aceitar.


Hoje por coincidência fui ao cinema, mas não por coincidência entrei na sala em que passava o filme Benjamin Button. Eu entrei naquela sala porque aquele filme tinha algo a me passar, uma lição prestes a ser dada a quem precisava desesperadamente ter seus olhos abertos. Digo isso pois também não foi coincidência ter encontrado 5 minutos antes de iniciar a apreciar esse espetáculo de filme que vi eles passeando pelo shopping, todo a sorrisos e gestos. Me recuso a assistir isso por mais de cinco minutos. Tempo limite. Por falar em limite e voltando ao que realmente interessa, o filme nos mostra de uma forma encantadora que tudo tem limites, inclusive o ser humano. No caso eu. Tem uma passagem do mesmo que diz:" Você pode ficar irado como um cão raivoso da forma como as coisas aconteceram, pode praguejar e amaldiçoar o destino, mas quando chega o fim, você tem que aceitar."
Frases estranhas para dizer, mensagens simples de entender, ao menos para os bons entendedores. É realmente hora de se desprender, deixar partir, aceitar o fim, e reiniciar. É inclusive o proprio filme que diz que "espero que você viva uma vida que se orgulhe. Se você acha que não está acontecendo, eu espero que você tenha a força para recomeçar tudo de novo."
E orgulho não era exatamente a palavra que descrevia a sensação que sentia por mim e pela vida que eu levava, podia sentir êxtase, mas orgulho não. Então que seja, que se refaça a vida, que ressurja das cinzas, como o milagre da fênix, que assim como benjamim, eu possa não voltar ao tempo, pois as lições são sempre tiradas e os aprendizados absorvidos como um sinal de maturidade, mas que possa se renovar, rejuvenescer, e se perpetuar.
Que eu pare de mentir pra mim mesma, remoer uma coisa que só não teve fim para mim porque eu insisto nesse meu egoísmo que só me faz infeliz, e a ele também nada de bom traz.
Que eu possa finalmente me encontrar, buscar a minha felicidade, e ao olhar para traz num momento de fra(n)queza, eu possa dar um sorriso meia boca e continuar de onde parei.
Que assim seja porque eu não posso mais suportar me contradizer a cada segundo, e não ter paz em nenhum deles.
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"O beija-flor não é apenas um pássaro qualquer, o seu coração bate 1200 vezes por minuto, bate as suas asas 80 vezes por segundo, se parassem as suas asas de bater, estaria morto em menos de 10 segundos. Não é um pássaro vulgar, é um milagre."
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Assim como Benjamim, um milagre. E eles acontecem.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

eu vou estar.


É fingimento. Ele demonstra uma tranquilidade que não existe. Não se pode ser sincero o tempo todo. Podemos? Tente. Olhe diretamente nos meus olhos e diga, com a clareza própria de quem se sente ferido, tudo o que gostaria. Ele iria querer optar pelo bom senso. Coisa que ele claramente não conseguiria ao me tocar em uma noite enluarada. (existe essa palavra? se não, para que servem os neologismos?)
Naquele dia, o pior deles, eu não consegui suportar o ver, não consegui suportar o fim. Quase corri da sala, e, assim que a porta se fechou, rompi em lágrimas, que a princípio julguei não fossem parar mais. Senti meu corpo esquentar, meu coração palpitar de uma forma nunca vista antes, meu corpo todo tremia. Meu desejo era poder ficar alí, sentada, sozinha, para dalí nunca mais sair. Ou que ele saísse daquele ambiente, no dia em que ficou claro que os dois não poderiam ocupar um mesmo ambiente por muito tempo, ou por tempo algum. Se ocorria dos olhares se cruzarem provocava no corpo um misto de sensações nunca antes sentidas. A vergonha do que fiz, a saudade do que foi e a do que não foi. Saudade do toque, do cheiro, do gosto, do rosto, do timbre, do riso. De tudo, que não me deixa em paz. O que me acalma é que eu sei que ele quer optar pelo tal bom senso pelo amor próprio que é maior que ele, e maior que o amor por mim. Garantia que esse amor por mim existe. Mas é aí que me pergunto, até onde meu sentimento é por ele, e não é por mim. Para alimentar minha vaidade, meu orgulho e libido.
Que seja. Você agora desfila com ela por aí, mas é em mim que pensa quando coloca a cabeça no travesseiro. A noite envolvido no silêncio do seu quarto, antes de dormir, você procura o meu retrato e na moldura não sou eu quem lhe sorri, mas você vê o meu sorriso mesmo assim. E é a mim que você deseja quando a toca, e quando fazem amor, se é que o que vocês fazem pode ser chamado de amor. Cuidado, não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada. Mas já que você quer tanto conseguir gostar dela, e se empenha tanto em tentar me esquecer, mentindo compulsivamente para si mesmo, afirmando que de mim nunca teve amor, admiro o seu esforço rapaz. Sinta-se livre, mas boa sorte. Você vai precisar.