domingo, 8 de março de 2009

cheiro de choro.


- Falta muito?
- Não, a senhora é a próxima.
Voltou a encostar no sofá de dois lugares. As revistas gastas só faziam-na sentir-se mais prisioneira de um tempo inútil, composto de motivos alheios e resultados nulos.
Sexta-feira: shopping center, salão de beleza, jantar de confraternização... O suceder do mesmo, repetido a cada semana. Não havia mais palavras que levassem a ele, o marido-executivo, sua aversão pelas festas da empresa – torturas agendadas do que, nela, era diferença. Comportar-se como as outras esposas, falar no mesmo tom os mesmos assuntos das outras esposas, ter o mesmo projeto de futuro das outras esposas... Do sapato aos cabelos, todas eram iguais. A cor do vestido, a estampa do casaco, o detalhe do brinco eram apenas disfarces da uniformidade. Um coral: cada uma, na sua voz, compunha a grotesca harmonia do hino à família, ao trabalho, à firma.
- A senhora pode passar.
Sentou na cadeira, corpo todo conformação, conformismo. Examinou, pelo espelho, os gestos do cabeleireiro. As mãos dele faziam-se leves ao tocar seus cabelos. Leveza humilhante, dos que vivem em mundos perfeitos e, por obra de um destino ingrato, se obrigam ao contato com as aberrações.
- Como vai ser? – perguntou ele.
Nem a pergunta mudava! Cinco anos e jamais mudou! Ali não havia lugar para nomes ou ânsias. Ali só havia lugar para cabelos.
- Ainda não sei. Estava pensando em variar um pouco, hoje. Tentar fazer...
Calou, as narinas subitamente desviadas de tudo o que não fosse aquele cheiro a se espalhar, grosso, ácido, pelo salão. Cheiro sem cor, mas negro como um flash explodindo nos olhos. Não perfume, cheiro. Mais que remédio, quase veneno, cheiro - a penetrar em tudo, a tomar conta de tudo. Cheiro-violência, capaz de sacudir, com a mesma força, corpos desfalecidos e mágoas ocultas.
Tonteou, nauseada. O cérebro ardia. Vinha dali, do lado, o cheiro. Vinha da mulher ao lado, dos seus cabelos presos em finos rolos, do líquido perigoso que mãos com luvas derramavam neles.
Mas vinha também daqui, de dentro de si mesma, o cheiro. Vinha de uma criança subitamente ressurgida, fazendo voltar à memória, desmaiada no esquecimento, cabelos, rolos, líquidos, feridas, febres, fracassos.
.
“Ah, mãe, teus sonhos foram pesados demais para a minha cabeça, doídos demais para a minha alma! Tanto esforço teu em me fazer outra, tanto empenho teu em me impor ortopedias de nada adiantaram! Mas eu peguei o vício e continuo, ainda, tentando. Depois de tantos anos, mãe, eu continuo aqui, ridícula, ainda tentando!”

Olhou o espelho. Queria, pela primeira vez, a própria cara. O cabelo escuro e liso, a expressão triste e opaca, a ausência de identidade – quem era esta? Em que lugar e tempo ficara presa, para sempre, a menina machucada por lindos cachos dourados?
Levantou, arrancou o avental do corpo, pegou a bolsa. Ao espanto de todos, falou:
- Preciso ir. Tem uma criança chorando, lá fora. Ela corre perigo. Está sozinha, no escuro, e só consegue abraçar seus joelhos. Preciso ir. Para cuidar dela. Para salvá-la. É muito choro. Ela vai se afogar. É muito choro.
Pagou à recepcionista pelo serviço não feito, cruzou a porta e chegou à rua. E só então percebeu que a rua, a cidade, o país, o planeta eram frios e molhados. Feitos da água do choro de crianças sozinhas.
O cheiro a acordara.

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