quarta-feira, 11 de março de 2009

paris je t'ame.




"Quando eu tinha dez anos de idade, meu pai e eu fizemos uma viagem a Paris, deixando meu irmão mais novo e minha mãe em Londres, onde ela estava fazendo um filme. Meu pai queria um tempo só para nós e isso se estendeu por uma semana. Nós ficamos em um grande hotel e ele disse que eu poderia escolher o que quisesse no café-da-manhã (batatas fritas). Nós fomos ao museu Pompidou, à Torre Eiffel e ao Louvre – como não poderia deixar de ser. Foi maravilhoso. No avião, de volta para Londres, ele me perguntou se eu sabia por que fomos, somente ele e eu, a Paris em um fim-de-semana. Eu disse que não, mas não importava. Me sentia tão sortuda pela viagem que nem havia pensado em um por quê. E então ele disse, “Eu queria que você visse Paris pela primeira vez com um homem que sempre amará você, não importa o que aconteça”. Hoje eu entendo o que ele queria dizer com aquilo. Desde então, Paris foi e continua sendo muito especial para mim. Eu vivi lá por cinco meses em 1994 e já viajei de volta várias vezes. Há lugares em Paris onde, até hoje, eu fico, como, bebo e brindo em pensamento ao meu pai."


terça-feira, 10 de março de 2009

alvorada.


Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva.
No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto.
Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro.
Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo.
E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.

•finalmente mais um dia amanheceu....

segunda-feira, 9 de março de 2009

sem mais nem porquê.


e eis que finalmente chegou o fim propriamente dito. o fim de verdade. aquele fim tão querido por mim, e que agora paradoxalmente, me corroi. estranho a forma como o mundo dá voltas e quem está por cima a qualquer segundo pode cair. prepara-te pra queda, ela é dura, mas amacia. pois com o tempo nem dói mais tanto como antes, uma vez que as feridas já estão feitas, apenas sangram. uma espécie de costume sabe? somado àquele sentimento reconfortante de que daqui a algum tempo o que antes tinha uma dimensão tão grande se tornará nada além de algo microscópico. todas as noite de lagrimas e desespero não serão nem ao menos lembradas, e se for o caso, serão acompanhadas de um pensamento positivo, ou no máximo neutro, de algo que foi, mas que não era pra ser.
o sofrimento é vivido em fases, quem já sofreu nessa vida sabe. já passei da fase do arrependimento, da tristeza, do desespero, da raiva, estou agora na fase da aceitação do fim e do reconhecimento do sentimento.
reconheco e aceito o fim. não adianta insistir em uma coisa que não pode se solidificar, e que no fundo nem quero realmente isso, quero é alimentar o ego que deixou de ser alimentado. patético.
reitero que aceito, aceito o fim, a dor, e o esquecimento. agora por favor tirem essa angustia de mim.

"quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer..."

domingo, 8 de março de 2009

cheiro de choro.


- Falta muito?
- Não, a senhora é a próxima.
Voltou a encostar no sofá de dois lugares. As revistas gastas só faziam-na sentir-se mais prisioneira de um tempo inútil, composto de motivos alheios e resultados nulos.
Sexta-feira: shopping center, salão de beleza, jantar de confraternização... O suceder do mesmo, repetido a cada semana. Não havia mais palavras que levassem a ele, o marido-executivo, sua aversão pelas festas da empresa – torturas agendadas do que, nela, era diferença. Comportar-se como as outras esposas, falar no mesmo tom os mesmos assuntos das outras esposas, ter o mesmo projeto de futuro das outras esposas... Do sapato aos cabelos, todas eram iguais. A cor do vestido, a estampa do casaco, o detalhe do brinco eram apenas disfarces da uniformidade. Um coral: cada uma, na sua voz, compunha a grotesca harmonia do hino à família, ao trabalho, à firma.
- A senhora pode passar.
Sentou na cadeira, corpo todo conformação, conformismo. Examinou, pelo espelho, os gestos do cabeleireiro. As mãos dele faziam-se leves ao tocar seus cabelos. Leveza humilhante, dos que vivem em mundos perfeitos e, por obra de um destino ingrato, se obrigam ao contato com as aberrações.
- Como vai ser? – perguntou ele.
Nem a pergunta mudava! Cinco anos e jamais mudou! Ali não havia lugar para nomes ou ânsias. Ali só havia lugar para cabelos.
- Ainda não sei. Estava pensando em variar um pouco, hoje. Tentar fazer...
Calou, as narinas subitamente desviadas de tudo o que não fosse aquele cheiro a se espalhar, grosso, ácido, pelo salão. Cheiro sem cor, mas negro como um flash explodindo nos olhos. Não perfume, cheiro. Mais que remédio, quase veneno, cheiro - a penetrar em tudo, a tomar conta de tudo. Cheiro-violência, capaz de sacudir, com a mesma força, corpos desfalecidos e mágoas ocultas.
Tonteou, nauseada. O cérebro ardia. Vinha dali, do lado, o cheiro. Vinha da mulher ao lado, dos seus cabelos presos em finos rolos, do líquido perigoso que mãos com luvas derramavam neles.
Mas vinha também daqui, de dentro de si mesma, o cheiro. Vinha de uma criança subitamente ressurgida, fazendo voltar à memória, desmaiada no esquecimento, cabelos, rolos, líquidos, feridas, febres, fracassos.
.
“Ah, mãe, teus sonhos foram pesados demais para a minha cabeça, doídos demais para a minha alma! Tanto esforço teu em me fazer outra, tanto empenho teu em me impor ortopedias de nada adiantaram! Mas eu peguei o vício e continuo, ainda, tentando. Depois de tantos anos, mãe, eu continuo aqui, ridícula, ainda tentando!”

Olhou o espelho. Queria, pela primeira vez, a própria cara. O cabelo escuro e liso, a expressão triste e opaca, a ausência de identidade – quem era esta? Em que lugar e tempo ficara presa, para sempre, a menina machucada por lindos cachos dourados?
Levantou, arrancou o avental do corpo, pegou a bolsa. Ao espanto de todos, falou:
- Preciso ir. Tem uma criança chorando, lá fora. Ela corre perigo. Está sozinha, no escuro, e só consegue abraçar seus joelhos. Preciso ir. Para cuidar dela. Para salvá-la. É muito choro. Ela vai se afogar. É muito choro.
Pagou à recepcionista pelo serviço não feito, cruzou a porta e chegou à rua. E só então percebeu que a rua, a cidade, o país, o planeta eram frios e molhados. Feitos da água do choro de crianças sozinhas.
O cheiro a acordara.

quinta-feira, 5 de março de 2009

disfarça e chora.


— E você, por que desvia o olhar?


(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)


— Ah. Porque eu sou tímida.



•e ele, que odiava entrelinhas, era posto mais uma vez frente a elas.

quarta-feira, 4 de março de 2009

e a a morte voltou como minha.

o nosso amor não vai parar de rolar
de fugir, de seguir como um rio
como uma pedra que divide o rio
me diga coisas bonitas
o nosso amor não vai olhar para traz
desencantar, nem ser tema de livro
a vida inteira eu quiz um verso simples
pra transformar no que eu digo
rimas fáceis, calafrios
fura o dedo faz um pacto comigo
um segundo teu no meu
por um segundo mais feliz.

de volta às mensagens impessoais, na tentativa de abafar o que me sufoca.

terça-feira, 3 de março de 2009

Carta de Valerie


"Sei que não há como convencê-lo que isto não é um truque, mas não faz mal. Sou eu. Meu nome é Valerie. Não creio que viverei muito tempo e quero falar sobre a minha vida. Esta é a única autobiografia que vou escrever e faço isso em papel higiênico. Nasci em Nottingham, em 1985. Não me lembro muito da infância, mas me lembro da chuva. Minha avó tinha uma fazenda e ela dizia que Deus estava na chuva. Fui aprovada no exame para o curso secundário. Na escola, conheci minha primeira namorada, seu nome era Sarah. Foram seus pulsos. Eles eram lindos. Achei que nos amaríamos para sempre. O professor dizia que era uma fase da adolescência que superaríamos. A Sarah superou, eu não superei. Em 2002, eu me apaixonei por uma garota chamada Christina. Naquele ano, contei aos meus pais. Não poderia ter feito isso sem a Chris segurando minha mão. Meu pai não olhou para mim, disse-me para ir embora e nunca mais voltar. Minha mãe não falou nada. Mas eu só contei a verdade a eles, isso foi egoísmo demais? Nossa integridade vale tão pouco, mas é tudo o que temos, é o mais importante em nós. Mantendo a nossa integridade somos livres. Sempre soube o que queria da vida. Em 2005 eu estrelei meu primeiro filme, “As Dunas de Sal”. Foi o papel mais importante da minha vida, não pela carreira mas sim porque conheci a Ruth. Na primeira vez em que nos beijamos eu soube que nunca mais iria querer beijar outros lábios. Nós nos mudamos para um apartamento em Londres. Ela plantou Scarlet Carsons para mim na janela e nosso apartamento sempre cheirava a rosas. Foram os melhores anos da minha vida. Mas a guerra nos EUA foi piorando e, no fim, chegou a Londres. Depois disso, não havia mais rosas, não para todos. O significado das palavras começou a mudar. Palavras como "colateral" e "rendição" inspiravam medo enquanto ganhavam força "Nórdica Chama" e "Artigos de Submissão". Lembro de como "diferente" virou "perigoso". Ainda não entendo porque nos odeiam tanto. Eles levaram a Ruth enquanto ela comprava comida. Nunca chorei tanto na minha vida. Não demorou para virem me buscar. Parece estranho terminar a vida em um lugar tão horrível mas durante três anos eu tive rosas e não pedi desculpas a ninguém. Eu morrerei aqui. Cada pedaçinho do meu ser perecerá. Cada pedaçinho... menos um. O da integridade. É pequeno e frágil e é a única coisa que vale a pena ter. Nós jamais devemos perdê-lo. Nem deixar que o tomem de nós. Espero que, quem quer que você seja, escape daqui. Espero que o mundo mude e a vida fique melhor. Mas o que eu mais quero é que entenda a minha mensagem quando falo que mesmo sem conhecer você e mesmo que talvez jamais conheça você, ria com você, chore com você, ou beije você... eu amo você. De todo o coração... eu amo você."
Valerie.


" Trecho do filme "V de vingança".