segunda-feira, 30 de março de 2009

de meus olhos, posso ver o mar.


é só saudade mas dói tanto quanto amor
é só seu rosto que aparece no televisor
mudo os canais a te procurar

é só saudade mas dói tanto quanto te olhar
dói como fome
como falta do que respirar
mudo o caminho mas meu destino está em você

como poderia não te perder?
se ao te encontrar me perdi
me perdi com a boca enveredada em teus cabelos
tuas mãos mapeando o corpo meu
em cada toque descobrindo as mais intensas sensações

sensações essas que imaginei somente existir nos livros
disfarças do conceito se sinestesia
mistura de percepções, reações impassíveis de descrição
arrepiando a alma e molhando o corpo

mas é só saudade, humana demais que sou.
enfim, é só saudade...

quinta-feira, 26 de março de 2009

a saudade é um parto ao revés.


eu estava dando uma lida em arquivos antigos, maldades, injutiças, crimes, falta de humanismo em tudo que vejo. afinal, faço direito, e é triste ver na prática aqueilo que aprendemos através de uma bela teoria igualitária. não pensem que estou descrente de minha profissão, longe de mim, acredito na tal teoria embora ela seja rara de se constatar. e almeijo ser uma dessas raridades, autoridades que exteriorizam o que há de bonito no ser humano. porque há sim muita coisa bela a ser mostrada e descoberta. e eu prefiro pensar sempre no copo metade cheio, mesmo sabendo que a outra metade está lá. tenho a intenção de, inspirada por figuras como o juiz De Sanctis, lutar pelos meus proprios ideais, fazendo prevalecer minha indole, carater e pensamentos. não me deixando abater por colarinhos brancos ou tribunais superiores. sei que parece uma utopia falar isso, dado que sabemos que a carreira juridica hoje( e desde sempre) é uma das mais corruptas, quando deveria combater fielmente a corrupção. mas toda grande macieira tem suas maças podres, e somente são apreciadas pelos homens e por deus as mais belas. quero ser uma dessas. melhor, vou ser.

enfim....

eu estava dando uma lida em arquivos antigos, maldades,injutiças, crimes, falta de humanismo em tudo que vejo. e me deparei com o caso que culminou na promulgação da lei para os crimes hediondos, o caso de daniela perez, a qual foi morta a tesouradas por motivo fútil. ao ler sobre o assunto vi uma bela declaração da sua mãe, gloria perez, que citava um trecho de uma musica de chico buarque: "a saudade é um parto ao revés."
essa frase de impacto me fez refletir. não só por soar, literalmente, como musica aos meus ouvidos, mas por me parecer tão verdadeira, cheia de pureza e dor. pois se você parar para pensar a saudade dói por te fazer querer trazer de volta pra dentro de si tudo que um dia foi seu. e dói mais ainda a impossibilidade de.
a impossibilidade de abraçar o corpo da pessoa da qual sentimentos saudade, para guardá-la, detalhe por detalhe, não na mente, mas nas entranhas. mas é a saudade que, paradoxalmente, alimenta a alma e nos faz sentir vivos, juntamente com as lembranças que ela carrega intrinseca a si, e a esperança de um dia encontrar o que vai estancar a ferida, para fazer doer a proxima.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Néctar.


A verdade aproxima-se.
Olha-me com os olhos
abismados da beleza.
Não sou a mulher
que corta os pulsos e se joga da janela
nem aquela que abre o gás
nem mesmo a loba que entra no rio
com os bolsos cheios de pedra.

Sou todas elas.
Escrever me fez suportar todo incêndio

– toda quimera.

segunda-feira, 23 de março de 2009

casado com a morte.


O artigo primeiro de nossa constituição federal versa, também, sobre o princípio da dignidade da pessoa humana, o chamado princípio-mãe que rege os demais princípios e artigos da carta constitucional. Tal princípio é conceituado por Sergio Ferraz como “a base da própria existência do Estado brasileiro e, ao mesmo tempo, fim permanente de todas as suas atividades. É a criação e manutenção das condições para que as pessoas sejam respeitadas, resguardadas e tuteladas, em sua integridade física e moral, asseguradas o desenvolvimento e a possibilidade da plena concretização de suas potencialidades e aptidões.”
Dignidade e liberdade atrelam-se à pessoa humana, indissoluvelmente. Cabe recordar que, um dos fins do Estado é propiciar as condições para que as pessoas se tornem dignas. Todavia, a dignidade humana pode ser por diversas maneiras violada, dentre estas, através da qualidade de vida desumana resultante, por exemplo, de um acidente que deixe o individuo tetraplégico e acamado pro resto da sua vida, como visto no filme “Mar adentro” em que Rámon Sampedro passa 28 anos lutando pela sua morte utilizando-se apenas de sua lucidez e inteligência, visto que ainda possuía os movimentos da face. Ou ainda, como demonstrado no filme “O escafandro e a borboleta”, em que o protagonista Jean-Dominique Bauby tem um derrame cerebral, que faz com que o único movimento que tenha em seu corpo seja o do olho esquerdo, o qual é utilizado para a sua única comunicação com o mundo exterior, através do numero de piscadas do personagem.
Tendo em vista esses dois exemplos, os quais são ínfimos diante do numero dos que existem, contudo podem ser considerados símbolos, eu lhes pergunto: O que é dignidade para vocês? Qual é a dignidade que o principio em pauta defende? Que dignidade uma pessoa em eterno estado terminal pode ter? Ou pior, quando essa pessoa luta o resto de sua vida, ou melhor, não-vida, pelo fim de seus dias, e conseqüentemente pelo fim de seu sofrimento.
No caso do filme mar adentro o personagem discorre em uma carta deixada antes de morrer sobre esse assunto e alega que seja qual for a resposta para a pergunta anteriormente feita, para ele aquilo não é viver dignamente. E clama por, ao menos, uma morte digna. O que proponho é uma reflexão a cerca disso, em que viver nessas condições torna-se uma obrigação, quando na verdade viver deveria ser visto como um direito, uma dádiva, proporcionando felicidade, e não amargurando os corações dos que vivem. Na premissa de por um fim ao tempo que passou contra a sua vontade durante todos esses anos, e na luta pelo direito de decidir sobre sua própria vida, Rámon indispõe-se com a igreja, a sociedade e até mesmo com seus familiares. Até que dividiu cuidadosamente O processo que causaria a sua morte em pequenas ações que não constituem delito em si mesmas, e foram executadas por diferentes mãos amigas, visto que o mesmo não tem condições para provocar a própria morte. Outro questionamento a ser feito, visto que qualquer ser humano em condições normais tem a capacidade de tirar sua própria vida, sem enfrentar processos, ou julgamentos, e neste caso nem ao menos isso Rámon poderia fazer sem ajuda de terceiros.
Não estou afirmando que a vida dos tetraplégicos ou de qualquer outro tipo de enfermos incuráveis não é digna. Longe de mim, quem sou eu para julgar aqueles que mesmo diante de uma situação dessas querem viver? Muito pelo contrário, admiro a coragem e a força de vontade que os mesmos demonstram. Estou aqui afirmando que uma vida obrigada, e forçada não pode de forma alguma ser considerada digna. Não existem argumentos que justifiquem tal atrocidade, principalmente aqueles no âmbito religioso que alegam que “Se só Deus nos dá a vida, só ele pode tirá-la”, visto que vivemos em um estado laico, entretanto visões como essa continuam intrínsecas ao nosso pensamento e são demonstradas em nossa constituição, a qual proíbe a prática da eutanásia, até mesmo em casos como esse, considerando por parte daquele que a causou, uma prática homicida.
Quando uma pessoa passa a ser prisioneira do seu corpo, dependente na satisfação das necessidades mais básicas; o medo de ficar só, de ser um fardo, a revolta e a vontade de dizer “Não” à vida, levam-no a pedir o direito a morrer com dignidade. Obviamente, o pedido deverá ser ponderado e analisado antes de operacionalizado, na premissa de que a qualidade de vida para alguns homens não seja um demorado e penoso processo de morrer, ainda possuindo o agravante de que em uma sociedade que adota uma politica de contenção económica, os custos dessa obrigatoriedade tornam-se bastante elevados.
Em suma, a constituição federal deve simbolizar como já simboliza em inúmeros aspectos, uma vez que é conhecida também como a "constituição cidadã", uma busca constante pela igualdade de direitos, liberdade e dignidade. E acredito que ao termino deste encadeamento de idéias tenha ficado bastante claro que uma vida que elimina a liberdade, não pode ser considerada vida.


foto do filme "O escafandro e a borboleta."

sexta-feira, 20 de março de 2009

anoitecer os sonhos e amanhecer o amor.



á chega! desejo todos os dias, como aquele desejo que alimenta o vício e corre nas veias em procissão, a chegada daquele que vai beijar a minha dor e honrar as minhas cicatrizes.
desejo que com ele, venha a verdade pura embrulhada em olhos de celofone.
a verdade, só pra variar, a verdade.
um beijo de verdade, como aquele dos cinemas americanos, comprido como costumam beijar-se os enamorados, ou como a lágrima desembocando na alvorada.
um beijo juntamente com o sorriso dele se abrindo tranquilo, o sol colorindo e a natureza tingindo de cor o frio da madrugada.
quero com ele poder me mandar por essa estrada mundo afora, ir embora, sem sair do meu lugar, que é ao seu lado. e assim, um pouco rebelde e com um quê de esperança, sentir-me segura e completa, porque é assim que ele me faz sentir.
e um dia, quando eu conseguir tudo o que almeijo e uma menina boba e invejosa, como eu me sinto hoje em dia, me olhar e pensar que "aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências" vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou o verdadeiro amor.
A M O R.
quando um mais um se torna um, os paradoxos se tornam cotidianos, e passamos a tecer o amado emetáforas, torna-se possível ver o futuro nas mãos e a felicidade escorrendo nos olhos.

quinta-feira, 19 de março de 2009

e ao inferno também.


e enfim o amor desafinou, perdeu o ritmo. ainda que o timbre soe suave e pueril, ao mesmo tempo que arrebatador e profano.
mas no peito dos desafinados também bate um coração. esse coração que depois das feridantigas já não é mais o mesmo, esse coração que bate cada vez mais lento pela abstinência do objeto catalizador.
aquele que desfolhou-me como à mais pura das rosas, com toda a delicadeza e o tato que o momento pedia, mas derrapando pelas curvas do meu corpo, completando-o, bebendo o que dele escorria pela pele.
o suor, o gozo, os gemidos que desordenam, o toque, e de fundo a musica embalando os nossos corpos à vontade. melhor ainda é poder deitar a cabeça com ar de alívio, sem os arrependimentos que me companharam nas camas que conheci, sentindo-me protegida por ter feito e presenciado o amor, pela primeira e unica vez.
amor presente no cheiro que exala quando você me aperta, me amassa, me quebra, me usa demais. presente no olhar de cumplicidade que você me lança quando me surpreende com seus movimentos, despertando em mim aquilo que há de pior, os instintos mais primitivos, e a fantasias que sobrevoam minha mente.
mas essas bocas que ontem se alimentavam devorando uma a outra, hoje cospem fogo e saliva. hoje você não me cabe, e eu te sobro. quero sangue pulsando, e esse fogo fervendo e queimando você. que uma onda te leve, te afogue e te entregue a quem for, mas que te faça desaparecer.
ah eu quero é ar para beber, eu quero mais é te perder...

quarta-feira, 18 de março de 2009

uma vida que elimina a liberdade não é vida.


“Mar adentro, mar adentro,
E na leveza do fundo,
Onde se cumprem os sonhos,
Juntam-se duas vontades
Para cumprir um desejo.

Um beijo incendeia a vida
Com um relâmpago e um trovão,
E em uma metamorfose
Meu corpo já não era meu corpo;
Era como penetrar no centro do universo:

O abraço mais pueril,
E o mais puro dos beijos,
Até sermos reduzidos
Em um único desejo:

Seu olhar e meu olhar
Como um eco repetindo, sem palavras:
Mais adentro, mais adentro,
Até o mais além do todo
Pelo sangue e pelos ossos.

Mas sempre acordo
E sempre quero estar morto
Para seguir com minha boca
Enredada em seus cabelos”.

Os Sonhos – Ramón Sampedro (Personagem do filme "Mar adentro")