segunda-feira, 24 de novembro de 2008

le félicité


Um dia ela voltou. Sem falar nada se enfiou comigo embaixo do edredom, quentinha e só foi embora quando o relógio despertou rasgando o conforto. Estava frio. Durante o dia ela voltou em situações bobas como o sorriso do menino mais lindo do mundo, a bolacha de chocolate que eu lembrei que tinha na gaveta e um relatório bobinho que eu fiz e caiu nas graças do meu chefe. Ela ia e voltava, ia e voltava: como a vida, sempre linear, sempre infinita. À noite ela apareceu na porta do meu banheiro, fez tanta força que entrou mesmo com a porta fechada. Me assustei ao vê-la através box embaçado, mas ela nem aí, me mostrou mais uma vez que quem manda é ela, e portanto tem o poder de me seduzir seja quando for, no momento que eu menos espero.Meu Deus, às vezes ela some por tanto tempo que me deixa sem ar. Tenho saudade, fico louca, tenho um vazio depressivo, um buraco. Sim sou dependente pois ela me trata como mais uma, e eu odeio ser mais uma. Mas eu aprendi, finalmente, eu aprendi que ela não aparece apenas numa grande história de amor, num baita sorriso de tirar o fôlego, na falta de lucidez de uma relação cheia de paixão ou na minha conta bancária recheada de grana pra entrar numa loja de sapato e levar tudo que eu quero sem perguntar o preço. Ela também dá as caras pelo lado simples da vida. Semana passada apareceu num sorvete de iogurte e hoje apareceu numa sala de espera lotada. Tava lá, eu, esperando para abrir as pernas naquela cama da tortura e ouvir da minha ginecologista: “não, não vai doer, relaxa, é bem rapidinho”. E ela apareceu. Liguei meu celular e vi que tinha uma mensagem. Alguém tinha deixado na minha caixa postal um recado, esquisito como sempre, alegre e divertido como nunca. Ri de mim. Ri das minhas gafes. Ri de tudo. A felicidade entrou com o pé na porta e sentou ao meu lado. Eu não estava mais sozinha esperando o espéculo. Minha cara carrancuda num trânsito todo parado e ela acena no carro à frente. Sorrio de volta e aceno. Ela sorri e depois morre de vergonha e toma bronca do pai para sentar direito na cadeirinha. O dia meio cinzento, vai-não-vai e de repente ela surge amarela e esquenta a vida. Ela mora numa gaveta cheia de bobeirinhas lá em casa, que tem caixinha de música, anel de docinho, cartão fofinho de dia das mães, fotos da minha bochecha quando eu tinha cinco anos e lembranças de carinho em flores secas. Ela é virtual, está no blog que eu escrevo, nos comentários que eu leio, nos e-mails histéricos que envio e recebo.Ela é a voz quando eu lembro do meu pai dizendo que eu era a mulher mais linda do mundo, que eu parecia uma rosa quando nasci. A mulher mais linda do mundo pequeno do meu pai. A felicidade mora num mundo pequeno seu e não naquele grande que faz você se perder demais. A felicidade é simples, e quando você descobre isso ela deixa de ser uma espera e passa a ser um minuto, um segundo. E é de minutos e segundos que se faz a vida. E aí você perde menos tempo esperando e mais tempo vivendo. Entre o piegas e o chavão, é assim que ando por aí vivendo a vida intensamente sem esperar momentos intensos. Você já tentou? Já tentou não imaginar a sua felicidade na outra festa que você estaria se não estivesse nessa e encontrar a sua felicidade onde você está? Tente, pode ser numa música boba, pode ser num amigo que você não via há muito tempo. Pode ser morrendo de rir de uma noite mico, por que não? Eu sempre esperei viver uma história de cinema, ouvir cantadas de filme francês, ganhar salário de estrela, ter amigos de sitcom, corpo de capa de revista e enterro de celebridade. Ai eu lembrei que os filmes de que eu mais gosto são aqueles despretenciosos que contam a história de uma pessoa idiota como eu.

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