quarta-feira, 5 de novembro de 2008

da vida tudo se leva

"Nasci numa noite quente. E não fui vaginal. Gol de barriga. Já era inquieta e por mais que amasse dormir, cinco horas me bastavam. Papai tocava violão e tinha a voz grave a afinada. Sentava perto do berço e cantarolava: "meu bem, já não precisa falar comigo dengosa assim... brigas para depois, ganhar mil carinhos de mim... se eu aumento a voz você faz beicinho e chora baixinho..." Sim. Erasmo Carlos. Os olhos sempre foram curiosos e grandes. Assim, embalada pelo violão ou pela voz de papai, Morfeu me conduzia ao sonho infantil pontuado por monstros verdes parecidos com o Hulk e balões em forma de coração, onde dentro, eu voava para bem alto. Sozinha. Sempre. Nasci no verão. O calor do berço me fazia virar de quinze em quinze minutos. Morfeu me abandonava rapidamente. Qualquer buzina na rua, qualquer tosse de meu irmão, meus olhos abriam, primeiro assustados, verificando uma possível existência do monstro verde no quarto. Depois curiosa, observando a vida de madrugada, tão calada, escura, úmida e incrivelmente bela. Chorava pouco. Resmungava. A cabra que me rege é chata. Não chora. Resmunga. Mamãe levantava com olheiras que a deixavam feia, e que hoje sei, será santificada por isso. Rezava comigo. Aplicava reiki. Me dava florais. Cantava ponto de criança. "estrelinha que está no céu a brilhar..." Bernardo desmaiado feito pedra. Leo ainda se mexia, mas muito cansado não conseguia reclamar do barulho. É que dormindo, eu não vivia. Sonhar ainda não era tão fascinante. Meu inconsciente ainda não havia despertado para essa outra possibilidade de vida. As janelas abertas. O ventilador ligado. A nuca suada. "Dorme com Deus", mamãe dizia e ia embora. Mas Deus era grande demais para dormir no meu berço. Na minha mente. Com medo de Deus estar presente no quarto, elaborava os pensamentos mais esquisitos para relaxar e tentar, enfim, dormir. Dentro da barriga era Chopin que me acompanhava e eu ainda não sabia. Daí teve um dia que ouvi alguém dizer que sonhar era a capacidade de viver tudo aquilo que a gente não vivia aqui, de olhos abertos. Só que de olhos fechados. E aí que castelo sempre me intrigou. E não o trono. Mas sim as torres e os calabouços. E com a cabeça ainda de cabelos lisos me enxergava num calabouço sujo e frio. O bolero de Ravel que mamãe insistia em colocar domingo para o almoço entrava ao fundo. De repente comecei a escolher outros lugares. Escolher as pessoas. A trilha. O roteiro era meu. Eu escolhia. Eu podia escolher. Vez ou outra, coisas que eu não havia escolhido se intrometiam, mas eu não ligava. Logo haveriam de sumir e sumiam. Não havia espaço para elas. E com alguns poucos anos de existência, numa noite de verão, aprendi a dirigir a melhor novela da vida. A minha."

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na terapia de hoje discuti como é totalmente incoerente o fato de que em determinados momentos de nossas vidas depositamos toda esperança de felicidade em uma única pessoa. e isso que hoje me vitimiza corroendo e aflingindo, já foi por mim pensado. já depositei sim tamanha responsabilidade em alguns seres ao decorrer desse longo trajeto que nos acostumamos a chamar de vida. e é incrível perceber o poder que elas detiveram sobre mim, podendo até mesmo decidir a qualidade diária. um sorriso era sinal verde, sinônimo de que aquele dia seria bom. já indiferença ou discussões eram sinal vermelho: pare o mundo que eu quero descer. amarelo? vermelho disfarçado, pois é nesses momento que o copo está sempre metade vazio, nunca metade cheio. mas o mais incrível de toda essa jornada é o poder de superação e mudança do ser humano, já que hoje eu posso ver tudo com clareza. foi hoje inclusive, que ao olhar o espelho eu vi a única pessoa capaz de me fazer feliz, eu mesma.

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