sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Francisco era um gozador


Nunca estive tão bem vestida, ainda que fosse o trapo do meu lençol da cama antiga. Calcei os chinelos. Segui até a varanda e tive vontade de dizer para o vizinho do prédio em frente, o prédio que sempre odiei porque toca pagode aos domingos, que eu o amava. Bom dia, vizinho! Eu amo você! Amo sua esposa, seus filhos, suas plantas, seu Corsa parcelado. Tudo. Eu amo a vida. Se bobear até o pagode. Bom dia vizinho! E segui dando bom dia às minhas amigas plantas. Bom dia à minha cachorrinha preguiçosa que me olhava sem processar porque era cedo demais pra processar. Bom dia para a água do passarinho. Para a ausência do passarinho. Para a empregada doméstica lá embaixo empurrando um carrinho de feira capenga. Bom dia capengas, seres, inanimados. Pessoas todas, me escutem, essa porra existe! O amor existe! Não era invenção de roteirista ruim! Bom dia! Dei bom dia para a cara torta do Bush no jornal e para a manga que comi inteira. Bom dia para as palavras que não terão mais acento. Bom dia para a Maria, que chegou de cara feia e logo sorriu pra minha cara desfigurada pelo amor. Caras de amor são como carrancas para espantar Marias infelizes. São tão bonitas que parecem caretas. Bom dia para os insetos que a Lolita quer pegar desesperada. Bom dia ao desespero. Tudo é bom. Tudo parece bom. Bom dia para a vida como ela sempre deveria ser. E segui com meu bom dia, mesmo quando o dia já escurecia. Dei bom dia para coisas rastejantes como meu tapete que sempre bagunça porque meu sapato prende nele e bom dia para meu tapete voador imaginário que me fez dar bom dia ao mundo todo, mesmo para aquelas pessoas que eu nem sonho que existem. Bom dia para todas essas coisas que virão e que foram e que estão. Porque quando se sente tanto a vida não importa nenhum momento solto e não importa que nomes tiverem esses momentos mas apenas toda essa força que sempre esteve aqui. Mas que só agora eu consigo pegar, amassar, apertar e dar bom dia. Bom dia! Bom dia! Bom dia força! Bom dia prolapso da válvula mitral. Eu sei que você está enlouquecido e com medo de morrer. Mas até sua quase morte merece um bom dia. E então vai dar tudo certo. E daria bom dia, hoje, para todas as lanças. Bom dia lanças maravilhosas que me dilaceraram tanto e me trouxeram até a melhor manhã da minha vida. Dou bom dia para todas as minhas cicatrizes. E abraçaria pés na bunda e beijaria caras de lado e velaria sonos de quem já me estatelou os olhos sem esperança de tranquilidade. E mostraria inteiros para quem negocia partes. Porque hoje é o dia de dar bom ao fim da dor, ao fim da vingança, ao fim da espera, ao fim da defensiva. E dar bom dia ao início da primavera, ao início da minha beleza e ao amor. Finalmente. Bom dia ao amor. E bom dia para essa risada que sai livre, solta e que eu nem percebo que é risada porque não consigo olhar pra fora da pele de tanto que é bom ficar aqui dentro. Hoje é o dia de dar bom dia a mim.


Tati Bernardi.


Um comentário:

Anônimo disse...

Já é tarde, não dá pra dizer um bom dia .. Mas então, BOA TARDE TATI! :D
Texto maravilhoso.

Abraços.