
Eu não te quero
nem perto nem longe:
te quero solto.
Por isso,
tento te ensinar o vôo de pássaro que testemunhei
daqui, da janela dos fundos.
Tento te falar das ondas arredondando as pedras,
batendo nelas, explodindo nelas
porque sabem:
a fluidez da paixão vence o inflexível,
o duro,
o aparentemente imutável,
o falsamente pronto.
Eu não te quero
nem em luzes nem em escuros:
te quero sem medo.
Por isso,
fiz para ti o caminho estranho
de estar presente como futuro.
Porque eu testemunhei o sem saída
e quando os muros chegaram no limite do mais alto,
quando subir neles era impossível,
quando ultrapassá-los era insanidade,
fechei os olhos e os muros desabaram,
sem ruído.
Não trouxe um livro nas mãos,
não decorei um discurso,
não aprendi a música,
nem te faço um testamento.
É a matilha, é o lobo
o que eu te ofereço.
É uma flor em cada poro:
uma permissão ilimitada,
uma autorização confiante,
um sim como resposta
para o que não perguntas.
Do fundo eu invoco as forças e elas chegam.
Do nenhum lugar, do nunca é que elas vêm.
Não me penso ilimitada
ou determinada.
Não me penso.
O último pensar desmanchou-se,
ao som dos guizos,
ao som de um chocalho índio,
que exorciza fantasmas,
(des)entendimentos,
culturas.
Visto essa roupa branca,
rude, limpa e grossa
para que sintas, ao tocá-la,
um contraponto de pele.
Para que sintas depois a pele,
depois o derretimento,
depois a inundação
e o escoamento.
E se posso chorar todos os choros,
e reuni-los num mesmo lugar
é porque nessa água navegas
desde sempre,
a escrever a minha história impessoal
pelas bordas,
pelo que me prende, prega
a impedir que eu (não) caia.
Habitas um território negro
um sangue negro te corre nas veias,
espinhos negros tatuam em teu corpo
o por onde andas.
Negras feridas, negra bandeira,
e essa vertigem que me coloca aí,
sem gosto por outra cor que não essa,
sem desejo por outro lugar que não esse.
Não ser luz, nem estrela,
não negar ou combater essa cor de cego
que vê além.
Apenas ficar.
Apenas aceitar,
Baixar a cabeça e aceitar.
Fechar os olhos, permitir-se a náusea,
e aceitar a febre, a convulsão e o vômito.
Não, eu não te traio.
Não, eu como contigo os vermes, os insetos.
Não, eu bebo contigo a água podre, o vinagre.
Não, eu não te renego.
Minha pele se arrepia,
cria espinhos como a tua
e diferente da tua
e eu não te renego.
Entras em mim pelos buracos, pelas fendas,
pelas aberturas todas que eu fechei,
pelas dobras, pelas costuras,
rasgando, ferindo
e eu não te renego.
Nunca estive pronta
e estou pronta.
Jamais acreditei
e acredito.
Sempre disse e busco não falar.
De algum profundo abismo
foste lançado e eu, longínqua,
aprisionada num outro tempo,
não te evitei, não pude,
sonhada que era por um deus
que desconhece as cronologias
e que te sonha junto,
incansavelmente,
porque nos quer como a si mesmo quer.
Por-me à prova é isso:
inverter-me, inventar-me,
querer-me e evitar-me.
Acordar meus demônios,
invocar meus fantasmas
e fazer voar sobre minha cabeça
os pássaros das tuas fantasias
e dos teus pavores,
esperando que eu não fuja
enquanto te afastas.
Eu fico.
Eu me abandono e te fico,
volátil, invisível, mas presente.
Tua cama, onde os pesadelos te encharcam
de um suor lascivo e triste,
prova que eu estou aí, ao lado,
afundando tudo com meu próprio corpo,
fazendo um dentro
para que descanses, para que não durmas,
para que, acordado, sonhes.
E, se teu destino é fazer ser
e minha sina é te cumprir,
desdenha as chaves,
des-desenha as portas,
desconversa as grades,
apaga o grito e cala a luz.
Não há essa fronteira, já te disse.
Fecha teus olhos fechados,
desiste de ir,
e vem!

2 comentários:
é longo..
mas, incansável.
entra por todos os poros.
invade nosso mais íntimo.
simplismente amei.
É lindo, é água, luz, terra , corpo e alma... É vida sentida, é mágoa aprendida pela força da imaturidade alheia...Tens a "espera" por testemunha, tens a "escolha" como caminho livre, tens à ti mesma, ao teu bom-senso, tens o dom de ver a vida em cristal e sustentá-la num sorriso inacabado, tal qual a Garota do Copo D'agua... Lindo!
Beijos,
Isabela
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